– São Bento 1×2 Ponte Preta e o Malandro Moderno “do Bem”.

Não assisti o lance citado no jogo entre São Bento x Ponte Preta, mas achei ESPETACULAR o texto escrito pelo respeitado escritor e ex-prefeito de Itu Lázaro Piunti, relacionando a malandragem decisiva do jogador Talles nessa partida (ludibriando a arbitragem) com a malandragem da atual sociedade brasileira (ludibriando ao próximo)!

Vale o compartilhamento, extraído do Facebook do próprio Piunti. Abaixo:

MALANDRAGEM DO BEM?!…

O lance ocorre no meio do campo. O atleta da Ponte Preta prepara-se para lançar a bola em profundidade percebendo um companheiro correndo à direita do gramado. O defensor do São Bento pressente a jogada e tenta deslocar-se para o mesmo ponto, quando é contido faltosamente por Talles, atacante pontepretano. O árbitro não viu a irregularidade e o auxiliar (antigamente a denominação era “bandeirinha”) ignorou a falta. Na sequência aconteceu o gol da equipe campineira. Eram decorridos 38 minutos do 1º tempo.

No intervalo o repórter entrevista o autor do gol, justamente o goleador Talles. E menciona seu “encontrão” faltoso em prejuízo do adversário. O jogador cinicamente admite o erro, faz deboche quanto à omissão do juiz dizendo que ele podia marcar ou não marcar a falta. Ri e fala que a malandragem é do jogo. Talles finaliza: “Uma malandragem do bem”.

Com a derrota em casa por 2 x 1 na noite deste domingo (10/03/19), a equipe de Sorocaba está virtualmente rebaixada para a segunda divisão do Campeonato Paulista. Adicione-se ao resultado a esperteza do Talles, estereótipo do malandro moderno.

Faz muito tempo que o futebol deixou de ser mero esporte. É uma profissão rendosa, emprega muita gente, envolvendo interesses e negócios milionários. A paixão clubística ocupa degrau menor na escala de sentimentos. A malandragem cantada em prosa e verso no Brasil dos anos 30 evoluiu negativamente no País. Desmerece o samba “Lenço no Pescoço”, do imortal Silvio Caldas, obra escrita por Wilson Batista.

O malandro brasileiro não usa mais chapéu-palheta. Tampouco se parece com o Vadinho, do romance “Dona Flor e seus dois Maridos”, de Jorge Amado. A malandragem moderna arromba os cofres públicos, mina as finanças, corrói o orçamento da Saúde, entorpece a Educação, condena os idosos a um epílogo existencial miserável. A malandragem contemporânea nada tem a ver com os personagens de Walt Disney, sejam eles o Gastão, primo do Pato Donald, ou o Zé Carioca. E não guarda semelhança com o divertido Pica-Pau dos desenhos animados.

A “Malandragem do Bem” definida por Talles é a desgraça consolidada no País da impunidade, onde viceja a corrupção, cevada não só nos gabinetes oficiais. Ela é a bola da vez, ágil e veloz. Gols ilícitos furando as redes do cotidiano. O jogo espúrio das relações promíscuas entre pessoas físicas e jurídicas, corporações e indivíduos. Há exceções, porém, tão poucas. A regra geral as obscurece.

Lázaro Piunti

ljpiuntiescritor@uol.com.br

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