– O Fungo Negro da Índia é tão assustador quanto a Covid.

Pobre povo indiano… se não bastasse os numerosos casos de Covid-19, um raríssimo (e letal) fungo está assolando a população. E o problema: isso ocorre, aparentemente, por auto-medicação indevida!

Extraído de: https://valor.globo.com/mundo/noticia/2021/05/23/fungo-negro-raro-infecta-milhares-de-sobreviventes-da-covid-19-na-ndia.ghtml

“FUNGO NEGRO” RARO INFECTA MILHARES DE SOBREVIVENTES DA COVID19 NA ÍNDIA

Propagação da mucormicose está sendo turbinada por doses às vezes excessivas de esteroides como a dexametasona, usada no tratamento da covid-19, dizem médicos

No fim de abril um homem de 52 anos e diabético recuperava-se da covid-19 em sua casa na cidade de Hyderabad, no sul da Índia, quando seus níveis de açúcar no sangue dispararam para quatro vezes o normal. O lado esquerdo do rosto de Yaseen Ahmed — incluindo seu olho, nariz e gengiva — começou a inchar e houve uma supuração.

Ahmed foi diagnosticado com uma rara — mas frequentemente mortal — infecção por fungos que está afligindo milhares de pessoas em recuperação da covid-19 na Índia, onde os médicos estão ficando sem o medicamento antifúngico usado em seu tratamento.

A infecção, mucormicose, também conhecida como “fungo negro” porque deixa o tecido corporal escuro, está afetando principalmente pessoas com diabetes. Com 77 milhões de diabéticos numa população adulta de mais de 850 milhões, a Índia tem o segundo maior número de diabéticos do mundo, perdendo apenas para a China.

“Não sabíamos nada sobre a mucormicose”, diz o filho de Ahmed, Wasay Ahmed.

A prefeitura de Nova Déli informou na quinta-feira que instalou centros de tratamento da mucormicose em três hospitais públicos da capital. Muitos Estados informaram mais de 500 casos cada, segundo disseram as autoridades em 15 de maio. O secretário da Saúde de Maharashtra, na região oeste da Índia e onde fica o centro financeiro Mumbai, informou na quinta-feira que 1.500 pessoas foram infectadas no Estado. Alguns pacientes morreram. Outros perderam a visão.

Normalmente a doença é rara, infectando por exemplo de cinco a dez pessoas por ano no Reino Unido, um país com 67 milhões de habitantes, diz David Denning, professor de doenças infecciosas da Universidade de Manchester na Inglaterra, e especialista em infecções por fungos.

Muitas partes da Índia vêm reportando a falta de anfotericina, um medicamento antifúngico usado no tratamento da mucormicose. Embora esse medicamento seja fabricado na Índia, o aumento súbito dos casos causou um problema de fornecimento. Na sexta-feira, o governo disse que as companhias farmacêuticas estavam aumentando a produção para atender a demanda e as autoridades buscavam agilizar a importação de mais 350 mil frascos do medicamento ainda neste mês.

Em Kota, uma cidade do noroeste do Estado de Rajasthan, Toshika Saxena estava desesperada tentando encontrar o anfotericina para a sua mãe, Vimlesh Saxena, 50, que desenvolveu um inchaço no olho esquerdo uma semana atrás, após se recuperar da covid-19. Ela precisa de uma cirurgia para remover as células infectadas, mas os médicos não se dispõem a fazer isso se ela não conseguir o medicamento. Sem a cirurgia, o fungo continua se espalhando, podendo chegar ao cérebro.

Segundo médicos, a propagação da mucormicose está sendo turbinada por doses às vezes excessivas de esteroides como a dexametasona, usada no tratamento da covid-19. O diabetes sempre reduz a eficácia dos glóbulos brancos, que combatem infecções, permitindo a contaminação por um fungo comum no ar. “Parece haver uma falha do sistema imunológico no combate ao fungo”, diz Denning, da Universidade de Manchester.

O uso excessivo de esteroides pode transformar uma situação de pré-diabetes em diabetes. A dexametasona pode ser usada para tratar pacientes com dificuldade para respirar, segundo afirmam médicos, mas não mais do que 6 miligramas por dia devem ser administrados por sete a dez dias.

Na Índia, muitos que não têm acesso a médicos vêm se automedicando com a droga, na tentativa de evitar a necessidade de suporte com oxigênio, embora médicos afirmem que isso não traz benefícios para pessoas que não necessitam de oxigênio, podendo até ser prejudicial. Alguns médicos também estão aplicando dexametasona em quantidades bastante acima das recomendadas quando têm acesso limitado a oxigênio.

“Na Índia, estamos usando doses muito maiores que as recomendadas”, diz Rajesh Pande, diretor de cuidados intensivos do BLK Super Speciality Hospital de Nova Deli.

Em resposta ao aumento dos casos de mucormicose, as autoridades indianas emitiram recentemente diretrizes sobre o uso de esteroides em pacientes de covid-19 e pediram às pessoas que evitem o uso de esteroides quando tiveram sintomas amenos da covid-19 na primeira semana de contágio. Um ambiente úmido criado pelo uso de oxigênio também permite o desenvolvimento do fungo, afirmaram as autoridades.

Doentes graves de covid-19 que receberam imunossupressores, um medicamento usado para evitar que o organismo ataque a si mesmo, também são vistos como vulneráveis à mucormicose, segundo Atul Patel, consultor-chefe do departamento de doenças infecciosas do Gujarat’s Sterling Hospital de Ahmedabad.

No hospital do doutor Patel, cerca de 30 pacientes de mucormicose foram admitidos nas duas últimas semanas. O Estado de Gujarat está entre os que apresentam o maior número de casos da doença.

A mucormicose não se espalha de uma pessoa para outra. Geralmente a contaminação se dá pela inalação de esporos que crescem no solo, plantas e em frutas e vegetais em decomposição. As máscaras podem evitar a infecção. O fundo negro geralmente infecta primeiro o nariz e as cavidades ósseas, escurecendo o forro nasal e eventualmente corroendo tecidos. Ele pode causar dores de cabeça e dificuldade de respirar. Também poder afetar os pulmões e o cérebro.

“Estamos informando as pessoas sobre esses sintomas porque eles podem ser tratados em estágios iniciais, mas se não forem tratados, é algo muito perigoso”, diz Naresh Trehan, cirurgião cardíaco da rede de hospitais Medanta.

Em casos graves, a mucormicose pode ser mortal ou debilitante, podendo levar a paralisia ou a necessidade de amputação de membros. O diagnóstico precoce, que exige uma biópsia, e o tratamento com uso de medicamentos como a anfotericina, combinado com cirurgia para a remoção de células infectadas, podem salvar 50% dos pacientes, diz Denning. Mas no caso dos pacientes não tratados, a taxa de fatalidade pode ficar entre 80% e 90%, acrescentou.

Os cuidados exigidos no tratamento da mucormicose estão comprometendo ainda mais o já excessivamente pressionado sistema de saúde da Índia, e os orçamentos familiares. Uma internação de uma semana em um hospital, depois que famílias já arcaram com os custos de tratamento contra a covid-19, pode ser cara demais para os pacientes, seja no setor privado, seja no público, afirma Ambrish Mithal, chefe do departamento de endocrinologia e diabetes do Max HealthCare Hospital de Nova Déli.

O que a ciência sabe até o momento sobre o fungo mucormicose originado na Índia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.