– Kassio Nunes Marques e a liberação dos Templos: você leu na íntegra a decisão?

Leio muita gente xingando e outros comemorando a permissão de celebrações religiosas por parte do Juiz do STF, Kassio Munes Marques. Mas você leu o despacho?

São 16 páginas, e preocupado em não criticar ou elogiar sem ter conhecimento da causa, resolvi ler o cansativo documento. E não é que (falando com a razão, sem paixão política, religiosa ou ideológica), ao contrário do que se vê nas manchetes, a decisão dele foi extremamente cautelosa?

Vamos lá: o juiz citou o transporte coletivo, mercados e farmácias como exemplos de serviços essenciais que continuam funcionando durante a pandemia, e lembrou que são maiores aglomerações do que as Igrejas e de difícil controle. Escreveu:

“Tais atividades podem efetivamente gerar reuniões de pessoas em ambientes ainda menores e sujeitos a um menor grau de controle do que nas igrejas. Daí concluo ser possível a reabertura de templos e igrejas, conquanto ocorra de forma prudente e cautelosa, isto é, com respeito a parâmetros mínimos que observem o distanciamento social e que não estimulem aglomerações desnecessárias”.

Mas não é verdade? Onde existem maiores aglomerações: nas igrejas ou nos metrôs?

As autoridades que haviam proibido celebrações religiosas são as mesmas que diminuíram o número de ônibus e vagões, superlotando o já lotado transporte público, ao invés de desafogá-lo.

No documento, se limita a ¼ da capacidade dos prédios, com todas as precauções, que se cumpridas, não provocam contágio:

  • uso de máscaras;
  • afastamento mínimo de 1,5m entre as pessoas;
  • o ambiente deve ser arejado com portas e janelas abertas;
  • limitar a lotação a 25% da capacidade;
  • disponibilizar álcool em gel e medir a temperatura na entrada nos templos.

Por fim, escreveu o Ministro:

“Reconheço que o momento é de cautela, ante o contexto pandêmico que vivenciamos. Ainda assim, e justamente por vivermos em momentos tão difíceis, mais se faz necessário reconhecer a essencialidade da atividade religiosa, responsável, entre outras funções, por conferir acolhimento e conforto espiritual.”

Aqui, o problema não é liberar qualquer atividade que seja: religiosa, esportiva, comercial ou de utilidade pública. É a POLITIZAÇÃO, o extremismo do “claro que não pode” versus o “lógico que pode”. Discute-se pouco, decide-se muito. A falsa impressão que muitos podem ter é que “liberou missa, culto, sessão espírita, ou qualquer outra manifestação” como era antes da pandemia, e não é nada disso.

Aí, corre-se o risco de generalizar a questão espelhando-se nos que usam a fé para ganhar dinheiro – lobos em pele de cordeiro que poderiam ter feito lobby por conta da queda do dízimo.

Sejamos parcimônicos para não cometermos injustiças. As medidas determinadas, se cumpridas corretamente, não trazem contaminação. Se não forem cumpridas, é lógico que trarão.

Abaixo, uma imagem para se refletir: padre Alex Motta, da Paróquia Santa Luzia, cuja igreja tem capacidade para mais de 300 pessoas (já contando o distanciamento, pois sem ele cabe muito mais gente), celebrando a Vigília Pascal de maneira on-line, solitário no altar, com o cálice contendo o Sangue de Cristo em suas mãos: há risco de contágio 75 pessoas em sua Missa, nas condições exigidas? Onde há a aglomeração nesse caso?

Para se evitar contratempos, e estando a uma semana do fim da fase emergencial, provavelmente muitos religiosos aguardarão para a retomada (algumas dioceses já sinalizam assim).

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