– Alguém faria alguma crítica contra o bondoso Papa Francisco? Por incrível que pareça, sim: os radicais católicos!

Parece piada, mas sabe quem são os grupos que mais criticam o Papa Francisco? Fanáticos ultraconservadores católicos (que até colocaram cartazes em Roma difamando o pontífice)! Em especial, um cardeal americano radical, Raymond Burke.

Extraído de Veja.com, ed 28/02.

A BATALHA PAPAL: FRANCISCO REAGE AOS ULTRACONSERVADORES

Pontífice é atacado sem misericórdia dentro e fora do Vaticano

O Vaticano atravessou a era moderna protegido por uma muralha de secretismo e de silêncio, em que desvios internos, crimes e discussões raramente chegavam aos ouvidos de quem estava tirando fotos na Praça São Pedro, em Roma. Essa tranquilidade foi arruinada neste século com a revelação de vários casos de pedofilia e de corrupção dentro da instituição. Nos últimos seis meses, foi a vez de as brigas internas extravasarem para o grande público, com o papa Francisco sendo atacado sem misericórdia por críticos conservadores de dentro e de fora do Vaticano. Cardeais deram entrevistas falando abertamente contra ele, grupos anônimos pregaram cartazes críticos em Roma e ativistas anti­abor­to postaram na internet um vídeo com insinuações e maldades a respeito do pontífice. No domingo 19, ele deu o troco sutil: “Os inimigos são todos aqueles que falam mal de nós, que nos caluniam e nos fazem mal. E não é fácil digerir isso. Estamos chamados a responder a todos eles com o bem”. A origem das críticas está na mudança avançada que Francisco pretende imprimir à relação entre a Igreja e os fiéis divorciados. Pelo dogma católico, o casamento é indissolúvel. Se uma pessoa se separa e se casa novamente, comete um pecado e não merece a comunhão na missa. O papa João Paulo II declarou que a única maneira de esses indivíduos serem novamente aceitos e participarem dos sacramentos consistiria em viverem como “irmão e irmã”. É uma solução obviamente esdrúxula e inaplicável no mundo de hoje, que só afasta os separados da Igreja.

Em março passado, Francisco publicou a exortação Amoris Laetitia (A Alegria do Amor), em que afirmava que a separação pode em alguns casos se tornar moralmente necessária quando se trata de defender o cônjuge mais frágil ou os filhos pequenos. O documento fala ainda da necessidade de acompanhar os separados, os divorciados e os abandonados. “É importante fazer-lhes sentir que fazem parte da Igreja“, diz o artigo 243. Só dessa forma, completa o documento papal, eles poderão fazer todo o possível para educar os filhos como cristãos. Esses fiéis, ainda que vivam em uma situação “subjetiva de pecado”, poderiam até receber a ajuda dos sacramentos, como a comunhão. “A questão-chave do papado de Francisco é o acompanhamento, a misericórdia na prática, o discernimento correto. As regras e os dogmas têm o seu lugar, com certeza, mas a prioridade é o amor paliativo“, diz o canadense Michael Higgins, professor de pensamento católico na Universidade Sacred Heart, nos Estados Unidos.
A novidade levou quatro cardeais a enviar ao papa um documento com cinco perguntas, que ficou conhecido como Dubia. Um dos autores é o americano Raymond Burke, um cardeal arquiconservador que em 2004 ameaçou não dar a comunhão ao então candidato democrata à Presidência John Kerry pelo fato de ele ter defendido o aborto (quanto a esse outro tabu religioso, nada deve mudar por enquanto). Como Francisco nem se deu ao trabalho de responder aos impertinentes, eles divulgaram o conteúdo das perguntas. Na versão falsa do L’Osservatore Romano enviada por e-mail e por mensagens de celular a várias pessoas no Vaticano, a Dubia aparecia contestada pelo papa em uma entrevista. Uma das questões fazia referência às relações após a separação: “Um ato intrinsecamente mau pode ser considerado algo subjetivamente bom dependendo das circunstâncias e das intenções?”. A resposta, inventada, foi: “Sim e não. Quem sou eu para julgar? Eu não me meto. Mas, se o doutor Gasbarri (organizador das viagens papais) xingar minha mãe, ele pode esperar um soco”. O trecho falso é um compilado de frases de Francisco fora do contexto. Não é feito para esclarecer, mas para confundir. A referência ao “soco” na falsa resposta anterior foi tirada de um comentário que o papa fez a propósito do atentado contra jornalistas do Charlie Hebdo, em 2015, que tinham desenhado Maomé em suas páginas. Na ocasião, o papa condenou o atentado, mas pediu respeito às religiões, dando a impressão de que estava relativizando a carnificina dos terroristas islâmicos.

Os desentendimentos entre Burke e o Papa Francisco já levaram o pontífice a tirar o americano de seu posto no tribunal mais alto do Vaticano. Burke, então, tornou-se padrinho da ordem dos cavaleiros de Malta, entidade soberana criada na Idade Méddia que emite os próprios passaportes e tem representação na ONU, mas cujos membros juram obediência ao Papa. Em janeiro, o grão-mestre da ordem, Matthew Festing, aliado de Burke, demitira um subalterno que despachou um pacote com camisinhas para ajudar escravas sexuais em Mianmar, a antiga Birmânia. Tradicionalíssimo, Festing achou isso uma ousadia. A Igreja continua condenando métodos anticoncepcionais, mas Bento XVI, o papa emérito, já abrira exceção quando o objetivo é reduzir o risco de infecções de aids. Para a antiquada Ordem de Malta, contudo, aprimoramentos e ajustes como esse são tolices da modernidade. Festing se recusou a reempossar o demitido e acabou convidado a renunciar. Além de ter relação com as questôes dogmáticas, a oposição ao papa está ligada a disputas na hierarquia. Francisco nomeou vários cardeais que compartilham sua visão de mundo, mais moderna e tolerante, e prometeu reformar a Cúria, o aparato político e burocrático da Igreja. Ele até criou um órgão, o Conselho dos Cardeais, com nove membros, para ajudá-lo nessa tarefa, mas a reforma ainda não decotou. Em vez de priorizar a estrutura sediada em Roma, o papa valoriza as igrejas. Em essência, Amoris Laetitia foi uma forma de acolher sugestões dos bispos de vários países que se reuniram em 2014 e 2015. Com essa atitude, Francisco marca uma diferença fundamental em relação aos antecessores João Paulo II e Bento XVI. “A Igreja será pobre e para os pobres? Ela incluirá a periferia ou fechará suas portas? Essa chamada para o Evangelho é difícil especialmente para aqueles que tinham poder, que se consideravam eles mesmos o centro”, diz o teólogo Michael Lee, da Universidade Fordham, nos Estados Unidos.

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