– Vasco 1×0 Santos: Simulação ou Infração no pênalti decisivo?

Um lance polêmico em São Januário: aos 43 minutos do 1o tempo, Nenê (VAS) está dentro da área e o goleiro Vanderlei (SFC) tenta alcançar a bola, erra o tempo do carrinho e acaba indo em direção ao atacante adversário. Na proximidade, o vascaíno pula e por fim acaba não ocorrendo o contato do santista.

PÊNALTI OU SIMULAÇÃO?

Pênalti, mesmo sem contato físico. Acertou o árbitro Leandro Pedro Vuaden. Explico:

Dar ou tentar dar um pontapé; desferir ou tentar desferir um golpe; tocar ou tentar tocar o adversário estão no mesmo rol de infrações na Regra do Jogo. São situações diferentes de colocar ou tentar colocar a mão na bola.

Na infração da mão na bola, só existe a intenção do ato que deve ser consumado. Ou seja: há de tocar de fato deliberadamente.

Na infração de um carrinho contra o adversário, não há a necessidade da consumação do contato físico. Ou seja: não é preciso atingir o adversário, pois já é infração a tentativa ou a iminência do toque. E isso deve ser avaliado como: imprudência (tentou a bola mas pegou/ pegaria o adversário), ação temerária (teve intenção de matar/ mataria a jogada) ou uso de força excessiva (não mediu as consequências de que foi grave/ seria grave a jogada). Respectivamente, você deve aplicar a advertência verbal (sendo imprudência), cartão amarelo (na ação temerária) ou cartão vermelho (uso da força excessiva). Repare que o tempo condicional do relato é para expressar que não precisa ter atingido e que vale a mesma coisa no caso de que “poderia atingir”.

Mas nem sempre você pode pular. O atleta não pode:

1) Pular depois de perder uma disputa de bola, simulando a infração, tentando ludibriar a arbitragem/torcedores.

2) Pular antes da disputa de bola se efetivar, abdicando da tentativa de domínio, deixando de jogar para tentar cavar uma falta.

A primeira situação, a da simulação, é um problema cultural brasileiro, onde os jogadores preferem enganar a arbitragem do que disputar lealmente o jogo, fato que não ocorre em torneios como a europeia Champions League.

A segunda situação, a da abdicação do jogo, é outro problema tupiniquim, o de achar que “tudo é falta”, onde “encostou tem que parar o jogo”. Remete até mesmo a uma certa frouxidão, não observada em torneios como a sulamericana Libertadores da América.

– No lance específico de domingo: Vanderlei fatalmente atingiria Nenê. Percebendo que poderia se machucar, o jogador pode pular a fim de evitar uma lesão grave. Seria um contrassenso da regra exigir que o jogador esperasse o contato para se tornar infração.

Dessa forma, vale o lembrete: toda jogada em que um atleta inevitavelmente for atingir o adversário caso ele se mantenha de pé, o atleta tem o DIREITO de saltar/ desviar/ cair para evitar o golpe. E o árbitro o DEVER de marcar a infração.

Em especial no lance de Vasco 1×0 Santos, há uma outra situação: Nenê alegou contusão e rolou no chão de dor. Se o fez por culpa da queda (caiu de mau jeito, estava mal equilibrado ou qualquer outra coisa do tipo), não há porque advertir o atleta e deve-se permitir o atendimento médico. Mas se Nenê alegou que a dor é fruto do toque do goleiro, fica comprovada uma simulação de contusão.

E qual o procedimento do árbitro?

Marca o pênalti (pois de fato foi) e adverte o atacante com cartão amarelo, pois quer ludibriar a arbitragem com um fato não ocorrido, levando a crer que o goleiro cometeu uma infração mais grave do que a realidade).

A Regra é fantástica por esses detalhes. Mas lembre-se: nem todos os jogadores a conhecem com a intimidade necessária…

Me recordo de um jogo no Pacaembu, em 2012, entre Santos x Juan Aurich, pela Libertadores da América. Na fase em que Neymar ainda exagerava nas simulações e era chamado de “cai-cai” (felizmente isso mudou), um jogador peruano foi para “quebrar” o atacante. Na iminência de uma lesão grave, Neymar saltou e o árbitro corretamente marcou o pênalti. Ao sair de campo, entrevistado se ele “cavou o pênalti”, respondeu:

“- Se não pulo, estaria no hospital”.

Em tempo: tal situação não é “jogo perigoso”, que nada mais significa que um jogador disputa uma bola, à distância próxima, de maneira a levar perigo a seu adversário, sem a chance do contato. Ou seja: há o perigo e o risco que não se consome pela distância que impede o toque. No caso de Nenê, não foi a distância natural da disputa de bola, mas a distância criada por ele na hora do salto. Sendo assim, tiro livre direto (na área, pênalti).

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