– Festejando o Carnaval de maneira santa: é Possível?

Há alguns que dizem: o “Carnaval é coisa do Capeta“. De fato, é. Assim como também pode ser o Futebol, a Política e qualquer outra coisa que se faça de maneira libertina.

Calma, não estou demonizando ou santificando os festejos carnavalescos. Apenas convidando a uma discussão à luz da fé católica.

Jesus, no Evangelho de dias atrás, nos lembrava que “se um olho é causa de pecado, arranca-o”. Perfeito! A mensagem do Salvador é a de que evitemos ocasiões. Imagine um dependente químico em recuperação: se ele mantiver a roda de amigos usuários, os costumes antigos e a frequência de lugares que levam à prática do uso de narcóticos, fatalmente pecará. Igualmente pode ser o Carnaval, dependendo do ambiente e do seu espírito. Questione-se:

  • As pessoas que ali estão te levarão a pecar?
  • O modo de agir dos que lá estão é o mesmo que o seu?
  • Sua consciência do que é “certo” ou “errado” ficará abalada?
  • Alguém ou algo te influenciará negativamente?
  • Ganho ou perco algo estando por lá (no salão, no bloco de rua, no Sambódromo)?

Dito isso, lembremo-nos novamente dos doentes: o próprio Cristo não veio aos sadios, como ele disse, mas aos que precisavam de médico. Não aos santos militantes, mas aos pecadores padecentes! Sua radicalidade ao Evangelho é a pura essência do Amor, em todos os sentidos. Ser radical é ser irreversível e incorruptível ao “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Dessa forma, questione-se: festejar uma festa pagã como o Carnaval, estando rodeado por nudez, erotismo, embriaguez e outras situações pecaminosas, me contaminará?

Se você for facilmente influenciável, é claro que sim. Se for razoavelmente volúvel, também. Se for firme nos seus propósitos de cristão, talvez (não podemos nos esquecer que o Inimigo de Deus usa de coisas atraentes e de sedução para corromper os filhos amados do Criador).

Recordamo-nos mais uma vez de Jesus: sentado com marginais, reunido com pessoas má vistas na época, indo às prostitutas e chamando os excluídos. E essa radicalidade por “levar a Boa Nova e viver no amor” não é função de nós, católicos batizados e confirmados na fé com o Sacramentando do Crisma? Ser cristão é “ser novo Cristo”.

Tragamos o advento de Jesus aos dias de hoje: se tudo não ocorresse há 20 séculos mas sim hoje, será que Jesus, se ao invés de nazareno fosse paulistano, não frequentaria a Cracolândia na região da Sé e da Luz? Poderia frequentar as difamadas e degradadas regiões de prostituição homossexual como a Amaral Gurgel e Indianópolis? Estaria ele circulando e evangelizando na região conhecida como “Boca do Lixo”? É claro que sim!

Na mesma comparação temporal, imagine: se nas Bodas de Caná, onde Jesus tomava vinho com seus amigos nesta conhecida passagem bíblica da festa de casamento, não poderia ele no século XXI estar tomando caipirinha numa festa de carnaval? Não confunda a abstemia ou o alcoolismo. Beber um aperitivo não é pecado; o problema é embebedar-se, sair da sobriedade e consequentemente causar confusão, maltratando o corpo (templo do Espírito Santo) e colocando a sociedade em risco (especialmente com acidentes de trânsito).

Em todos esses ambientes: de prostituição, bebida, festejos, em lugares indevidos ou nos devidos, a força do discípulo de Jesus será abalada? Se você for convicto de fé e estiver revestido da armadura de Deus, o Espírito Santo, não. Correrá riscos? Claro, somos de carne e osso (fortalecidos pelo Espírito, logicamente).

Entretanto, e a resposta clara e objetiva sobre “pular ou não Carnaval”?

Impossível ser monossilábico. Vejamos o desfile da Escola de Samba da Vila Maria, em São Paulo: a Arquidiocese de São Paulo conseguiu um feito incrível, beirando o milagre: transformou a “festa da carne” (de alegria e satisfação carnal) em um santuário de conversão (ao menos, durante a passagem da agremiação e para os que se envolveram – de leigos engajados na fé até à pessoas que há anos, ou melhor, décadas, não ouviam uma Palavra Santa). Membros de outras escolas, torcidas e partícipes foram evangelizados, presentes ali ou pelas imagens da TV. E não nos esqueçamos também do aconselhamento aos apóstolos: “quem tem ouvidos, ouça“! Quantos corações foram tocados? Quantas “sementinhas” plantadas?

Ao longo da história da Igreja, pessoas iluminadas conseguiram tornar santos os eventos pagãos. A festa do solstício de verão, ocorrida entre os pagãos há mais de 7000 anos no final de dezembro, foi apropriada para que os cristãos celebrassem nesta data o Natal do Senhor Jesus. Templos de Baal (ou Baalzebu, que aportuguesou-se “Belzebu”, um dos nomes do Diabo), transformaram-se em sinagogas e posteriormente locais de igrejas cristãs. A Páscoa judaica, festa da passagem de Yaweh, virou a abundância da vida e colheita de Salvação com a ressurreição de Jesus e a transformação da data para os seus seguidores em Páscoa cristã. No Sambódromo do Anhembi, onde outrora os cultos afros e outros sincretismos eram quase que exclusividade do local, em aversão ao Catolicismo, tornou-se por algum tempo espaço do amor da Mãe, de Nossa Senhora Aparecida, cujo tema sobre os 300 anos da aparição da sua imagem de Conceição permitiu o conhecimento de muitos ignorantes sobre o surgimento da devoção mais querida de nosso país, tornando-a popularmente com o título de Rainha e Padroeira do Brasil.

Por fim, vale ressaltar: para que o evento ocorresse, toda nudez, menção pejorativa, heresia ou algo que pudesse escandalizar o mais crente dos católicos foi exigido. Bispos da Igreja e demais autoridades eclesiásticas estiveram atentos para que nada fosse profanado. E desta feita, ineditamente, o Carnaval tornou-se festejo cristão de evangelização. Vide as lágrimas dos foliões e da alegria daqueles que levaram a imagem e o tema da Mãe do Nosso Senhor às multidões.

Tudo cabe seguir o modelo de Jesus e dos santos da Igreja. Tornar o pecador em convertido, ir aos que não conhecem ou aos que pecam, fazer algo novo! Sim, foi possível tornar o evento um local familiar.

Quer voltar ao começo da nossa conversa? Rememore o primeiro parágrafo deste artigo: “Há alguns que dizem: o ‘Carnaval é coisa do Capeta’. De fato, é. Assim como também pode ser o Futebol, a Política e qualquer outra coisa que se faça de maneira libertina”.

Se as arquibancadas dos estádios de futebol gritam xingamentos, fedem maconha e exaltam ódio entre os adversários, serei eu um deles? Que eu tenha a firmeza de torcer em paz (o falecido Papa João Paulo II disse: o esporte deve servir para inspirar os valores éticos e cristãos). Se a Política é repleta de corruptos e entrelaçada com os corruptores, não devo crer que como candidato fulano ou ciclano poderia ser um vereador ou um deputado honesto, temente a Deus? Que eu tenha discernimento na hora do voto (disse o Papa Francisco: a Política é o grau mais alto da Caridade – relembre tal frase aqui: http://wp.me/p4RTuC-c0U). Se a Sapucaí é o local de folia, que eu faça do ambiente um local de congraçamento das famílias.

Em suma, um excepcional ensinamento do espanhol São José Maria Escrivá, servo de Deus, que extrapola a questão da falibilidade papal dos dois temas do parágrafo acima e mostra a radicalidade de quem quer ser seguidor de Jesus:

“Tudo o que eu fizer, que eu faça de maneira cristã.”

Se eu for um advogado, um médico, um policial, um comerciante, um professor, um estudante, um filho, um catequista, um aprendiz, um sábio, um ignorante… não importando o que eu seja (até mesmo um carnavalesco), que eu faça de um modo cristão, respeitando o Evangelho, nosso Credo e o Catecismo da Igreja Católica, iluminados pelas Sagradas Escrituras e do Magistério Eclesial, dentro do amor incorruptível.

Encerrando: que as manifestações populares sejam oportunidades de união e confraternização adequadas, nunca eventos pecaminosos ou de pura libertinagem explícita, levando à diversão sadia dentro da cultura dos povos. Isso não é só respeito, ecumenismo, evangelização ou folia, isso é também cidadania!

Repetindo: no Carnaval, se for ao baile, à avenida do samba, ao clube ou até mesmo aos convites mais reservados, “tudo o que eu fizer, que eu faça de maneira cristã”. É assim que blindamos nosso corpo, nossa mente e principalmente nossa alma das investidas de Satanás!

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