– A 4a divisão paulista, o medo do Clube-Empresa e a necessidade de transparência.

Enquanto na elite do futebol se falava de Libertadores da América e Sulamericana, do Brasileirão e de outras tantas coisas importantes, acontecia no Interior Paulista a fase preliminar da 4a divisão estadual – um campeonato deficitário, ruim e de nuances assustadoras.

Primeiro: não é um torneio “profissional de verdade”, pois é limitado até a idade de 23 anos. É um “juniores estendido, com registro em carteira”.

Segundo: o nome oficial é fake: chama-se “2a divisão de futebol profissional Sub 23”, ou carinhosamente invocada como “Bzinha”. Na prática, é a 4a divisão.

Terceiro: o desnível é muito grande: times que dão WO por falta de ambulância (como o Barcelona Esportivo da Capela do Socorro), misturados com times tradicionalíssimos como o América de São José do Rio Preto (onde o próprio clube denunciou que tinha atletas envolvidos em esquema de manipulação de resultados – uma praga dessa divisão), somados a clubes inusitados (como o Atlético de Mogi das Cruzes, há 4 anos sem vencer um só jogo, com mais de 40 derrotas em 4 edições do torneio).

Quarto: para quem foi eliminado na primeira fase, o time, pasmem, teve apenas 5 semanas de disputa! Ou seja, o clube fica em atividade de competição por um pouco mais de 1 mês, e sem jogos oficiais por quase 11! Inviável e ilógico.

Quinto: comumente se vê atletas “comprando vagas para se jogar em equipes”, permitindo a realização do “sonho de ser atleta“. Há também treinadores-empresários que assumem a agremiação e levam seus atletas, colocando-os na vitrine (já vi isso até em equipes na A2, mas nunca deu certo esportivamente…) 

Sexto: há clubes-empresas das mais diversas origens, como o Colorado Caieiras (bancado por um apaixonado torcedor de futebol e empresário do ramo de supermercados), Manthiqueira (que anuncia trabalho social em seus propósitos) e terceirizados (como o Grêmio Prudente, cujo mecenas é um importante empreendedor do ramo de material esportivo).

E já que o assunto nesse último item foi clube-empresa, não me furtarei de falar do Paulista FC. Tradicional e centenária agremiação, que há 15 anos disputou a Libertadores da América, mas foi desclassificado da 4a divisão estadual em 2021. O clube foi gerenciado como uma empresa pela Lousano e teve em seu elenco Toninho Cerezo (Sampdória) e Alemão (Napoli), dois jogadores de Seleção Brasileira. Também foi gerido como empresa nas mãos da Parmalat e virou Etti Jundiaí, igualmente com sucesso e disputando o Paulistão com competitividade, bem como séries de acesso do Brasileirão. E quando teve a chance de ter a parceria com a Red Bull muitos bradavam que “não se renderiam ao dinheiro gringo e que o clube estava sendo vendido”. 

Ué, não estão vendo o sucesso do Bragantino? As ações de marketing local e global são espetaculares, sem contar com o resultado dentro de campo. E o Galo abriu mão disso (aliás, aceitou que a Kah Sports e a Fut-Talentos tocassem o time pois o nome Paulista se manteria – como não se tivesse mudado com a Lousano e a Parmalat). Pior: li nos fóruns manifestações de que “se a Red Bull quebrar, o time quebra junto!”. Como se o Paulista não estivesse quebrado nas contas (pois essa é a justificativa padrão de todas as diretorias)…

Aqui, uma observação: o presidente Rodrigo Alves está de parabéns e é o responsável pelo time não ter pedido licença (pois se pede, ficaria difícil voltar). Mas também ele é responsável, como chefe maior da instituição, das finanças e da escolha dos treinadores Chuva e Baiano (já que é o presidente da equipe quem banca a permanência do diretor de futebol Julinho). 

Três considerações finais:

1- Por quê não há comunicação da diretoria com os meios de comunicação que alcançam boa parte dos torcedores? Rodrigo, bem como o diretor Julinho, não deram uma entrevista sequer à Rádio Difusora. Ora, falar é ser transparente! Na TV Japi, o ex-diretor do Galo, o Dr Marcos Zuffo, disse que deixou em caixa R$ 300.000,00! Para onde foi esse dinheiro? Não há ao menos uma contestação / palavra oficial do clube? Vá à emissora e diga.

2- Fazer rifa, promover evento beneficente, permuta com empresários e envolvimento da torcida, é muito bonito e romântico. Mas não cabe ao futebol profissional… O futebol em geral deixou de ser um evento atrativo e sofre concorrência com outros lazeres, além da credibilidade do esporte em geral ser contestada. Pepe Verdugo, Juninho e Zanata eram questionados e a justificativa era a falta de dinheiro. O grupo político atual, que contestava, alega agora a mesma coisa. Então as críticas às diretorias anteriores foram injustas, já que a atual usa o mesmo argumento? 

3- Que “medo é esse” de clube-empresa? A tendência do futebol, irreversível, é essa! Nos anos 30 e 40, alguns ousaram em peitar o profissionalismo e ficaram para trás. Era um caminho sem volta. A mesma coisa agora: os clubes pequenos, médios ou grandes, com propósitos de revelar jogadores, fazer marketing ou disputar títulos (ou os 3 simultaneamente), terão que se profissionalizar de verdade e se transformarem em empresas responsáveis. Vide a Lei das SAFs, ou os novos times existentes com proprietários (de Red Bull, passando pelo Audax, chegando ao simpático Metropolitano de Jundiaí). Não tem jeito, será necessário arranjar parceiro ou se autosustentar. City Group, dono no Manchester City, vem montando clubes como o NY City ou comprando outros, no Japão, no Uruguai e na Venezuela, ou fazendo parcerias como na Bolívia ou na Espanha. A Juventus da Itália é da FIAT. Dan Friedkin pagou R$ 3,8 bi e levou a Roma. Grupos chineses e demais asiáticos estão na Premiere Legue comprando todo mundo. Eles chegarão, uma hora ou outra, ao Brasil.

Penso: que paura é essa de que o clube tenha um dono? Se a empresa for séria, ótimo! Do jeito que está, ninguém assume a culpa dos erros e todo mundo fica passando o chapéu…

Profissionalizem-se, falem às claras, e façam a coisa certa, clubes brasileiros. Urgente, para o bem do esporte e sobrevivência das equipes.

Imagem extraída de: “O Curioso do Futebol”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.