– O testemunho tocante e lúcido da conversão de um ateu (outrora católico não-praticante)!

Li a postagem de Guilherme Angra, um escritor que tem dois livros publicados e que mantém um blog muito bacana no link em: https://guilhermeangra.wordpress.com (clique e conheça mais sobre sua obra e seu trabalho),  a respeito das suas inquietações de fé.

Ele aborda sua própria experiência de católico não-praticante (e disserta sobre o que é essa “característica de crença descompromissada”), sua fase de ateu e depois como agnóstico, até o momento em que buscou conhecer mais a fé católica – em momentos decisivos da sua trajetória de vida.

É bastante interessante, de leitura prazerosa e com uma mensagem de busca pelas coisas do Alto. Vale a pena a leitura, abaixo:

Extraído de: https://guilhermeangra.wordpress.com/2021/01/14/to-so-pela-proxima-missa-de-domingo/

TÔ SÓ PELA PRÓXIMA MISSA DE DOMINGO

por Guilherme Angra

Comecei 2021 indo na primeira missa do ano. E fazia tempos que não pisava dentro de uma igreja. Eu usava a desculpa que o meu Deus era pessoal, eu não precisava visitar Sua casa, eu era Sua casa celestial, então bastava eu rezar um Pai Nosso antes de dormir e pronto, dívida paga com o sagrado. E, para ser sincero, raramente eu rezava. Sim, eu sou o legítimo católico não-praticante, ou seja, não sou nada. Por que diabos você diz ser católico se não pratica sua fé? E eu sempre fui este católico não-praticante. Desisti da catequese, não fiz a Sagrada Comunhão, nunca tomei a hóstia, nunca me confessei para um padre. Pelo menos fui batizado. Já é alguma coisa, eu acho.

Ali pelos meus vinte e um anos tornei-me ateu. Era fácil: “Eu vivo em um mundo sem sentido, repleto de sofrimento e maldade, e ainda vou morrer no final. Que tipo de Deus faria um mundo assim? Ou é um Deus mau, ou Deus não existe!” Fiquei com a segunda opção. E como eu me achava inteligente por ser ateu! Me achava o diferentão da galera. Lembro-me de ler Richard Dawkins, Sam Harris, Carl Sagan, Charles Darwin. Depois disso, quem iria me segurar? Tornei-me o ateu militante. Gozava em debates onde ateus massacravam cristãos com seus argumentos cientificistas irrefutáveis. Ficava a pensar, dentro de minha arrogância de jovem que acha que sabe tudo: “Imagine viver se reprimindo por causa de um Deus que não existe?” Esta ideia, vez ou outra, passava pela minha cabeça.

Não me entendam mal. Eu não era o sujeito que chegava na cara de um cristão e o chamava de “burro”. Eu nunca fui esse cara. Porém, por dentro, este pensamento pairava sobre minha consciência. O máximo que cheguei a fazer nesta época, foi entrar em um debate sobre o aborto, no qual, obviamente, defendi o aborto em qualquer fase da gestação, pois, na minha visão cientificista, colocar uma criança no mundo para passar fome, era pior do que lhe tirar a vida; ter um filho deficiente, era pior do que lhe tirar a vida; a mulher ter uma criança cujo nascimento fosse lhe causar mal-estar, era pior do que ceifar a vida do bebê. Lembrar disso me causa estranheza e pudor, graças a Deus.

Este pensamento de que “nada importa, somos todos um acidente da matéria”, me fez cair em hedonismo e niilismo, ou seja, nada tem sentido, preciso sentir prazer o máximo que eu puder. Na época traí minha namorada inúmeras vezes. Aquele namoro perdera o significado. Meu ideal de fidelidade fora destruído, assim como outros valores. Minha vida era uma bagunça. Morava em um apartamento, onde raramente eu o limpava. Escrevia pouco, lia pouco e estudava pouco. Passei a preencher meu vazio com pecados. E, de todos eles, a luxúria era o meu vício. Marcava encontros durante o dia para realizá-los à noite. Vez ou outra, eu precisava caminhar quilômetros para satisfazer o meu desejo. E eu caminhava, pois não tinha carro. Ao voltar para casa, sentia-me vazio, sentia-me em uma vida insignificante. Eu tinha consciência que estava me afundando, e pasmem! No outro dia eu fazia tudo novamente. Em meu livro, Ninguém Deveria Envelhecer Sozinho, explico em detalhes toda esta fase sombria da minha vida.

Resumindo: saí deste buraco. A vida me sorriu, ou eu sorri para ela, não sei dizer, só sei que foi uma troca mútua. Consegui sair daquele lugar sombrio e pude recomeçar a minha vida, pude ressignificá-la em outra cidade, com novas rotinas, novas pessoas, novas atitudes. Aquela fase de ateuzinho de internet havia passado, graças a Deus! Dizia-me que era um agnóstico: “Sei lá se Deus existe, é impossível provar, então ficarei aqui em cima do muro.” Nesta época eu comecei a ler de maneira obsessiva autores como Nelson Rodrigues, Santo Agostinho, Luiz Felipe Pondé e Dostoiévski. A visão destes autores diante do cristianismo, me enterneceu, principalmente a de Nelson e a de Dostoiévski.

A virada de agnóstico para um cristão aconteceu em uma terça-feira à noite. Juro! Estava finalizando uma biografia de Nelson Rodrigues. Aquela leitura confessional fez-me sentir coisas que eu nunca havia sentido antes. Eu só pude atribuir este sentimento a Deus. Eu senti Deus! Eu senti algo transcendente. E a cada frase lida era um soco na alma. Era como se o Nelson estivesse ali comigo, do meu lado; e através disto tudo, pairava um sentimento inexplicável, forte e insano. Não é demagogia, aconteceu, eu senti tudo, e foi uma das sensações mais profundas que tive na vida. “Ah, Guilherme, mas por que o Deus cristão?” Talvez porque o cristianismo tem, pelo menos, dois mil anos de existência no currículo. Talvez porque as pessoas mais admiráveis que conheci e que sigo atualmente, possuem uma relação direta com o cristianismo, talvez porque o cristianismo formou a cultura ocidental e nos deu um norte. Acho que é por isso.

Outro momento que marcou-me o espírito, foi quando eu e minha mulher fomos ao cemitério visitar o pai dela. O cemitério estava vazio, éramos apenas eu e ela andando entre os milhares de túmulos. Não há como não sentir a limitação da existência, não há como sair daquele lugar sem refletir sobre vida, morte e transcendência. Esta experiência gerou-me uma das melhores coisas que já escrevi na vida: Deus Visita Apenas Cemitérios Vazios. Quando puder, leia.

No fim de 2019, eu e minha mulher se juntamos com as famílias do bairro para a Novena de Natal. Eu nunca tinha participado de algo assim antes. Eu não conhecia quase ninguém que estava ali. A maioria das famílias eram de casais velhinhos, daqueles que fazem bodas de ouro. Rezávamos, refletíamos sobre algumas passagens da Bíblia, cantávamos e trocávamos experiências de vida. Aquilo me gerou um sentimento de união e paz de espírito. Era como se a esperança na humanidade renascesse dentro de mim. Mas o que marcou-me foram os casais de velhinhos, unidos, rezando. Eles olhavam para mim e para a Adeline com brilho nos olhos, como se estivessem se enxergando em nós, na juventude, quando se conheceram. Eram todos educadíssimos e com um bom senso de humor.

Eis o que eu queria dizer: comecei 2021 me propondo ir à missa todo o domingo. Já fui nas duas que aconteceram este ano. Ao adentrar na igreja, é impossível não admirar-se com a casa de Deus. Só de contemplá-la, você se sente bem. Há uma crônica em que Nelson escreve: “Dentro da igreja, mesmo a tosse, mesmo o pigarro, eram diferentes. O sujeito que ia à missa entrava em relação direta, fulminante, com o Sobrenatural. Até o mau-caráter prostrava-se em adoração.” É isso: nos prostramos em adoração a algo maior.

Em minha ingenuidade, achei que chegaria lá e a igreja estaria vazia. “Ora, quem vai à missa ainda?” Ledo engano. Estava abarrotada de gente, gente de todas as cores, classes e até credos diferentes. Enfim, tive o mesmo sentimento da Novena de Natal: união e paz de espírito. É isso! O cristianismo une as pessoas. O nazismo também unia pessoas, o comunismo une pessoas até hoje, entretanto, o cristianismo as une e as coloca na busca do maior bem possível. Vez ou outra eu escrevo por aqui que temos de mirar neste “maior bem possível”. O cristianismo é um ótimo alvo: dois mil anos no currículo, lembram? Que alvo seria melhor que este? Há uma entrevista com Jordan Peterson, onde o entrevistador lhe faz a pergunta monumental: “— Você acredita em Deus?” E ele responde, lacônico: “— Eu ajo como se Deus existisse.” Isso martelou na minha cabeça. Ora, o que Peterson de fato quis dizer com sua resposta objetiva, foi algo como: você não precisa acreditar em Deus para seguir os valores cristãos. Há mais conhecimento humano na Bíblia do que em qualquer outro livro. Dois mil anos, lembram?

Deixe-me voltar à missa. Descobri que não sei bulhufas sobre a prática da igreja, sobre a prática de uma missa. Momentos onde todas as pessoas precisavam repetir aquelas frases prontas após a fala do padre, eu boiava; nas belas canções tocadas, eu boiava; perguntava-me o que diabos significa “Hosana nas alturas”, “Kyrie eleison” ou se o Cordeiro de Deus é Jesus Cristo. Enquanto eu estava lá, de joelhos sobre o estrado de madeira, com a cabeça baixa, passou todo este filme pela minha consciência. Eis o milagre: mesmo eu me dedicando tanto ao ateísmo, lendo os autores, entendendo os argumentos, vencendo debates; mesmo eu me dedicando ao agnosticismo, acreditando que o muro era o melhor lugar para se ficar; mesmo diante de tudo isso, o cristianismo me resgatou, mesmo eu tendo lutado contra ele durante anos, ele me resgatou. Por que eu não daria uma chance? Por que não me dedicar a ele como me dediquei a milhares de coisas fúteis e mesquinhas em minha vida?

Tô só pela próxima missa de domingo.

Publicado por Guilherme Angra

Me chamo Guilherme Angra, sou um escritor com dois livros publicados e diversos textos postados na internet. (Crônicas, artigos, contos, poemas). Me formei em Administração, pós-graduei-me em Gerenciamento de Projetos e atualmente estudo Psicanálise. Além disso, crio conteúdo nas plataformas do YouTube, Facebook e Instagram. Meu conteúdo baseia-se em reflexões filosóficas sobre as várias nuances da vida: relacionamento, felicidade, tristezas, angústias, trabalho, finanças, intelecto e etc. Espero poder ajudá-lo de alguma forma.

2 comentários sobre “– O testemunho tocante e lúcido da conversão de um ateu (outrora católico não-praticante)!

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