– Os Áudios da Corrupção no Futebol

Se esses senhores citados nesta matéria fazem isso sem escrúpulos nas negociações, é de se duvidar que façam em outras áreas do futebol (como arbitragem, administração, pessoal, marketing e publicidade)?

Sobre a vergonhosa gravação de J Hawilla, envolvendo Kleber Leite, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero (surgida hoje), abaixo,

Extraído de: http://interativos.globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/especial/grampos-revelam-como-funcionava-distribuicao-de-propina-no-caso-fifa

ÁUDIOS DA PROPINA

Grampos revelam como funcionava distribuição de propina no “Caso Fifa”. Áudios e documentos mostram que empresários subornaram dirigentes para obter contratos

10/05/2018 15h00 – Reportagem por Martín Fernandez,Desenvolvimento por Carlos Lemos

Na manhã de 9 de maio de 2013, o empresário brasileiro J. Hawilla acordou com o toque do telefone em sua suíte no hotel Mandarin, em Miami. No lobby do cinco estrelas, agentes do FBI, a polícia federal americana, o esperavam para prendê-lo por obstrução de justiça. No dia seguinte – exatamente cinco anos atrás – o dono da Traffic, então uma das maiores agências de marketing esportivo do mundo, começou a colaborar com as autoridades americanas nas investigações do “Caso Fifa”.

José Hawilla

Empresário, dono da Traffic. Foi preso pelo FBI em 2013, confessou vários crimes e virou um dos principais colaboradores da justiça nos EUA no “Caso Fifa”

Em troca de não ser processado por alguns crimes, Hawilla passou a gravar telefonemas e reuniões pessoais com dirigentes de futebol, funcionários de suas empresas, sócios e concorrentes. O empresário também forneceu documentos, contratos e relatou encontros dos quais participou. Sua colaboração foi decisiva para as investigações, em curso até hoje, que resultaram no indiciamento de dezenas de cartolas, entre eles os três últimos presidentes da CBF e os três últimos presidentes da Conmebol.

Os grampos de J. Hawilla e centenas de documentos relativos ao caso mostram o dono da Traffic e seus interlocutores discutindo abertamente o pagamento de propina para cartolas em troca dos direitos comerciais da Copa do Brasil e da Copa América, entre outras competições. O “Caso Fifa” atingiu diretamente os dois últimos presidentes da CBF: Marco Polo Del Nero foi banido de todas as atividades relacionadas a futebol e José Maria Marin foi preso. Parte das gravações feitas por Hawilla foi divulgada pela TV Record em dezembro de 2017.

O esquema funcionava assim, segundo a investigação: as agências subornavam os dirigentes para conseguir a preço baixo os contratos de campeonatos da CBF e da Conmebol. Os direitos comerciais das competições eram cedidos a esses intermediários sem que houvesse nenhum tipo de concorrência. Os direitos depois eram revendidos para emissoras de TV e patrocinadores por valores muito mais altos. Com parte do lucro da operação, as agências pagavam os subornos aos cartolas. O caso corre nos EUA porque os esquemas de corrupção usavam bancos e empresas americanas para movimentar dinheiro.

O GloboEsporte.com procurou todas as pessoas citadas nesta reportagem. Hawilla, que é acionista da TV Tem, afiliada da Rede Globo, não comentou. A defesa de Marco Polo Del Nero afirmou que não há provas de que o cartola tenha recebido suborno. Por meio de seu advogado, o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira afirmou que as gravações de Hawilla “não têm legitimidade nem verossimilhança” e por isso vai processar o empresário. Os advogados de José Maria Marin não quiseram comentar o caso. O empresário Kléber Leite, que foi grampeado por Hawilla, afirmou que não reconhece as gravações como idôneas. Sua nota completa está publicada ao fim deste texto.

– Há flagrante manipulação nos diálogos. Uma total desconexão entre o que se pergunta e o que se responde. Jamais nos diálogos reais, verdadeiros, mantidos por mim, com o delator e réu confesso José Hawilla, houve menção a nomes de pessoas, ao contrário do que ocorre nas gravações, quando os nomes são citados, exclusivamente, por ele.

Copa do Brasil: propina milionária

O diálogo reproduzido a seguir se deu no dia 2 de abril de 2014 entre os empresários José Hawilla e Kléber Leite, respectivamente donos das agências de marketing esportivo Traffic e Klefer, empresas que até hoje são donas de parte dos direitos da Copa do Brasil. Durante décadas, os dois empresários foram amigos e sócios. Romperam depois que o escândalo de corrupção se tornou público e ficou claro que Hawilla havia grampeado Leite.

J. HAWILLA — O Marin e o Marco Polo sabem que você está pagando mais para o Ricardo?

KLÉBER LEITE — Claro que sabem.

J. HAWILLA — Que você paga mais?

KLÉBER LEITE — Não. Não pago mais, Hawilla. É um e um.

J. HAWILLA — Mas esse um do Marin ele divide com o Marco Polo, não divide?

KLÉBER LEITE — Divide. Como eles fazem, não tenho a menor ideia.

Segundo o Departamento de Justiça dos EUA, os direitos da Copa do Brasil foram obtidos graças ao pagamento de propinas milionárias para os três últimos presidentes da CBF: Ricardo Teixeira (1989-2012), José Maria Marin (2012-2015) e Marco Polo Del Nero (2015-2018).

O “um” citado no diálogo é o valor do suborno. R$ 1 milhão por ano para Ricardo Teixeira e mais R$ 1 milhão por ano para ser dividido entre Marin e Del Nero. A conversa por telefone foi gravada por J. Hawilla, que atuava orientado por promotores de Nova York e agentes do FBI.

Marin foi condenado pela Justiça dos EUA e está preso enquanto aguarda a divulgação de sua sentença. Teixeira e Del Nero não ocupam mais cargos no futebol. Os dois estão no Brasil, país que não extradita seus cidadãos. Sempre que se pronunciaram sobre o assunto, Del Nero e Teixeira afirmaram ser inocentes.

Em entrevista à TV Globo no dia 27 de maio de 2015, Kléber Leite afirmou que nunca pagou propina a nenhum dirigente. De fato, não há nenhuma acusação contra o empresário, nem no Brasil nem nos EUA.

— Jamais usamos deste expediente para obtenção de qualquer contrato ao longo dos 32 anos de vida da Klefer.

Em dezembro de 2011, três meses antes de deixar a presidência da CBF, Ricardo Teixeira vendeu os direitos das edições de 2015 a 2022 da Copa do Brasil para a Klefer, empresa de Kléber Leite. Por que 2015? Porque os direitos do torneio até 2014 já estavam vendidos para a Traffic, de J. Hawilla.

Valor do contrato com a Klefer: R$ 1.319.000,00 por ano em troca de todos os direitos da Copa do Brasil com “exceção de internet e transmissão por TV dos jogos da categoria masculina para território brasileiro e transmissões estrangeiras em língua portuguesa, cujos direitos a CBF cedeu à Rede Globo”.

Contrato de dezembro de 2011 em que a CBF vende os direitos da Copa do Brasil para a Klefer

Numa das conversas gravadas por Hawilla, em 26 de março de 2014, Kléber Leite dá a entender que, por este acordo entre 2015 e 2022, a Klefer pagava uma propina anual de R$ 2 milhões para Teixeira, Marin e Del Nero.

KLÉBER LEITE — Hawilla, eu tenho impressão, eu tenho impressão, que antes era um e meio. Eu tenho impressão que antes era um e meio. Esse um e meio reduziu para um, para ter mais um para os outros caras.

Os “outros caras” são José Maria Marin e Marco Polo Del Nero. Em 12 de março de 2012, acossado por denúncias de corrupção dentro e fora do Brasil, Ricardo Teixeira renunciou à presidência da CBF e aos cargos que ocupava na Fifa e na Conmebol.

Na CBF, Teixeira foi sucedido por Marin, na época o vice-presidente mais velho da entidade. Os postos nos Comitês Executivos da Conmebol e da Fifa foram ocupados por Del Nero. A dupla passou a mandar no futebol brasileiro. Del Nero e Marin, segundo a investigação americana, herdaram mais do que os cargos.

Em agosto de 2012, cinco meses depois da renúncia de Teixeira, Klefer e Traffic assinaram um acordo sobre a Copa do Brasil. Em vez de uma agência (Traffic) explorar comercialmente o torneio em 2013 e 2014 e a outra (Klefer) de 2015 até 2022, elas trabalhariam juntas por todo o período. Como a Klefer detinha originalmente um contrato mais longo, a Traffic concordou em pagar R$ 12 milhões como compensação.

Klefer e Traffic entram em acordo para explorar em conjunto a Copa do Brasil até 2022

Segundo os grampos e os documentos, o acordo também previa uma nova divisão do pagamento de propina. Teixeira, que recebia R$ 1,5 milhão sozinho, teve sua “cota” anual rebaixada para R$ 1 milhão. Marin e Del Nero, que acabavam de chegar ao comando da CBF, também recebiam R$ 1 milhão – valor que deveria ser dividido entre eles. Os detalhes foram discutidos numa conversa entre J. Hawilla e Kleber Leite gravada no dia 2 de maio de 2014.

KLÉBER LEITE —

Foi uma maneira que nós encontramos

de dar uma equilibrada. Porque você tem que atender um lado. Você… e ainda diminuímos o outro. Quer dizer…. Coloquei para um:

“Olha, tem que dar uma diminuída, porque não tem alternativa. Você vai ceder um lado e nós vamos acrescentar outros. Aí emparelha”. Aí tiramos 500 de cá e colocamos mais 500. Ficou um e um. Foi exatamente isso.

J. HAWILLA — Sim, mas o outro um tem que dividir por dois. É isso que estou te falando, pô. Tem que dividir por dois.

KLÉBER LEITE — Mas Hawilla, isso é problema deles, é um problema de ordem interna lá. Eu não tenho que me imiscuir nisso. É problema deles.

J. HAWILLA — Então não é um e um. É 500, 500 e um. Você entendeu?

KLÉBER LEITE — Hawilla, como eles fazem, eu não tenho a menor ideia. Eu não tenho a menor ideia. Para mim é passado e presente. Você tem que respeitar o passado que é lá que foi resolvido. Já foi acordado, o passado resolveu ceder. Cedeu. E a gente acertou aqui o presente e o futuro. Agora, o que que eles fazem, quando dividem, de que forma, não é problema meu. Não tenho nada a ver com isso, pô. Isso é problema deles.

Os mesmos números constam de emails trocados entre funcionários das duas empresas, e em documentos apreendidos por autoridades brasileiras (e enviados aos EUA) na sede da Kléfer, no Rio de Janeiro. O termo “passado” é usado para identificar Ricardo Teixeira, que à época já estava fora da CBF havia quase dois anos. Os termos “presente” e “futuro“ servem para designar a dupla formada por José Maria Marin e Marco Polo Del Nero.

E-mail de funcionário da Kléfer para funcionário da Traffic no qual estão detalhadas as propinas referentes ao contrato da Copa do Brasil

Os codinomes foram repetidos num SMS enviado por Kléber Leite para J. Hawilla no dia 31 de março de 2014.

SMS de Kleber Leite para J. Hawilla no qual estão detalhados os pagamentos para “passado” (Ricardo Teixeira) e para “presente e futuro” (José Maria Marin e Marco Polo Del Nero

Os valores e a forma de pagamento dos subornos foram discutidas várias vezes. Num telefonema gravado no dia 24 de março, o dono da Traffic se referiu às propinas como “o PF dos caras”. O dono da Klefer tentou alertar sobre o perigo de falar sobre o assunto ao telefone.

KLÉBER LEITE — [inaudível] Mas agora não sei se o pagamento… tenho impressão, talvez, que eles tenham feito o pagamento fora. Talvez por aí. Mas pessoalmente a gente conversa sobre isso.

J. HAWILLA – Sei. Mas já pagou uma parcela?

KLÉBER LEITE — Já pagamos. Com absoluta certeza.

J. HAWILLA – Pagou para o Ricardo, o Marco Polo e o Marin?

KLÉBER LEITE — Não… não sei. Hawilla, não vamos falar essas coisas por telefone, não, porque é muito perigoso, bicho. Já basta aquela última lá sobre aquele negócio daquele cara. Falar por essa porra aí é complicado. Pessoalmente a gente fala sobre isso. Eu não estou no Brasil, mas telefone é foda, telefone é uma merda.

J. Hawilla não gravou apenas conversas por telefone. No fim da tarde de 30 de abril de 2014, o empresário se reuniu pessoalmente com José Maria Marin, na época presidente da CBF, no hotel Aqualina, outro cinco estrelas de Miami. O dono da Traffic carregava um gravador escondido e provocou o cartola ao mencionar o pagamento anual de R$ 1 milhão para Ricardo Teixeira, que àquela altura já não era presidente da CBF havia dois anos.

J. HAWILLA —

Agora a Copa do Brasil…

Tem que dar R$ 1 milhão pro Ricardo? Fala para mim.

JOSÉ MARIA MARIN — Eu acho, presta bem atenção, presta bem atenção que, puxa, o que nós já fizemos e estamos fazendo… já era hora de chegar no nosso lado. Não é verdade?

J. HAWILLA — Lógico, lógico. O dinheiro tem que ir para vocês.

JOSÉ MARIA MARIN — É isso.

J. HAWILLA — Não é pra ele.

Em 27 de maio de 2015 Marin foi preso em Zurique. Uma tradução ao inglês desta conversa com J. Hawilla estava no indiciamento tornado público naquele dia pelo Departamento de Justiça dos EUA. O cartola foi extraditado para os EUA seis meses depois e cumpriu prisão domiciliar em seu apartamento na Trump Tower, em Manhattan, até finalmente ser julgado e condenado em dezembro de 2017.

Marco Polo Del Nero e Ricardo Teixeira seriam citados num segundo indiciamento, de dezembro de 2015, acusados dos mesmos crimes pelos quais Marin foi condenado. Os dois estavam (e continuam) no Brasil, país que não extradita seus cidadãos, motivo pelo qual nunca foram (nem serão) julgados nos EUA.

Teixeira não exerce desde 2012 nenhum cargo relacionado a futebol. O período de Marco Polo Del Nero como presidente da CBF terminou em 27 de abril de 2018, quando o Comitê de Ética da Fifa o baniu para sempre de todas as atividades relacionadas a futebol. O cartola vai recorrer da decisão da entidade que manda no futebol mundial.

Procurada, a CBF enviou uma nota na qual afirma que fará concorrências para definir os donos dos direitos de suas competições:

– Não existe nenhum contrato ou relação comercial entre a CBF e a empresa Traffic. Com relação à Klefer, existe um contrato firmado em 2011 e com vigência até 2022. A CBF tem buscado sempre que necessário propor renegociações que atendam aos interesses da entidade e dos clubes participantes. Quanto ao futuro, o compromisso da CBF é pela realização de concorrência para definição de detentores de direitos relativos a competições e Seleção Brasileira.

O empresário Kléber Leite enviou a seguinte nota à reportagem:

As gravações que já foram divulgadas há bastante tempo pela TV Record, não reconheço como idôneas. Há flagrante manipulação nos diálogos. Uma total desconexão entre o que se pergunta e o que se responde. Jamais, nos diálogos reais, verdadeiros, mantidos por mim, com o delator e réu confesso, José Hawilla, houve menção a nomes de pessoas, ao contrário do que ocorre nas gravações, quando os nomes são citados, exclusivamente, por ele.

Aliás, há um quadro no programa do Washington Rodrigues, na Rádio Tupi, que é exatamente o que aqui relato, quando o diálogo que vai ao ar sofre manipulação exatamente na fala de quem entrevista.

Diálogo original: “Ô fulano, você gosta de usar a camisa do Flamengo?” Resposta: “Adoro. Simplesmente me realizo. É o meu momento de glória.”

Diálogo que vai ao ar: “Ô fulano, você gosta de se vestir de baiana?” Resposta: “Adoro. Simplesmente me realizo. É o meu momento de glória.”

Nas gravações exibidas pela TV Record que, imagino serem as mesmas mencionadas por você, os meus advogados tentaram realizar perícia, porém, pela qualidade, os peritos contatados afirmaram ser impossível uma avaliação 100% precisa.

Enfim, respeito, mas lamento que este tema, já amplamente divulgado, retorne ao noticiário, como se já não tivesse causado enorme estrago na vida das pessoas.

Copa América: “Vamos todos presos”

Em 1991 começou a funcionar na América do Sul um esquema de corrupção no futebol que só seria interrompido mais de 20 anos depois pelo FBI e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Naquele ano, sem fazer nenhum tipo de concorrência, a Conmebol vendeu para a Traffic os direitos comerciais de três edições da Copa América, a serem disputadas em 1993, 1995 e 1997.

A agência de J. Hawilla pagou US$ 6,6 milhões pelo contrato – US$ 2,2 milhões para cada edição do torneio. O então presidente da Conmebol, Nicolas Leoz, impôs uma condição: só assinaria aquele contrato se recebesse um suborno. J. Hawilla topou pagar.

– Eu não lembro precisamente, mas foi algo como US$ 500 mil. Paguei porque precisava do contrato – confessou o empresário brasileiro durante seu depoimento no julgamento do “Caso Fifa” no Tribunal Federal do Brooklyn em dezembro de 2017.

A Traffic conseguiu os contratos de todas as oito edições da Copa América disputadas até 2011 com o mesmo expediente, pagando propina a quem tomava as decisões na Conmebol. Além de Leoz, J. Hawilla declarou (sob julgamento) ter subornado por vários anos os ex-presidentes da CBF, Ricardo Teixeira, e da AFA (Associação de Futebol Argentino), Julio Grondona, morto em 2014.

Trechos do depoimento de Hawilla à Justiça dos EUA, no qual ele afirma ter subornado Leoz, Teixeira e Grondona

De acordo com várias testemunhas do “Caso Fifa”, o trio mandou no futebol sul-americano sem ser incomodado até 2010. Foi quando a cúpula da Conmebol teve que lidar com o que J. Hawilla chamou de “golpe de estado” dentro da confederação. Os presidentes das federações de Equador, Venezuela, Colômbia, Bolívia, Peru e Paraguai criaram um grupo político para reclamar do excesso de poder concentrado em Leoz, Teixeira e Grondona.

O “Grupo dos 6” – que logo passaria a ter a presença do Chile e viraria “dos 7” – exigia o fim dos contratos com a Traffic. Eles queriam que os direitos da Copa América fossem vendidos para a empresa argentina Full Play, dos empresários Hugo Jinkis e Mariano Jinkis, pai e filho.

Também por meio do pagamento de subornos, os Jinkis já haviam estabelecido relações com dirigentes desses países. A pressão deu certo. No dia 8 de junho de 2010, uma reunião em Johanesburgo decretou a derrota da Traffic e a vitória da Full Play. A Conmebol assinou um contrato que dava à empresa argentina todos os direitos da Copa América a partir de 2015.

Problema: a Conmebol já havia vendido os mesmos direitos para a Traffic, como prova um documento assinado por Nicolas Leoz, então presidente da entidade, em fevereiro de 2004.

Contratos assinados pela Conmebol vendendo os mesmos direitos da Copa América de 2015 para duas empresas

J. Hawilla não aceitou apanhar calado. Em novembro de 2011, a Traffic foi para a guerra: entrou com uma ação na Justiça da Flórida, nos EUA, contra a Conmebol, seu presidente Nicolas Leoz, todas as dez federações de futebol da América do Sul e mais a Full Play.

O contra-ataque de Hawilla funcionou. O processo se arrastou por um ano e drenou centenas de milhares de dólares dos cartolas para o pagamento de advogados americanos. Os Jinkis e a Conmebol propuseram a Hawilla uma trégua, um acordo. E ele aceitou.

O dono da Traffic topou encerrar a ação na Justiça dos EUA. Em troca, sua agência de marketing esportivo foi incluída num consórcio, formado por três empresas, que compraria da Conmebol todos os direitos da Copa América dali por diante.

No dia 21 de maio de 2013 formalizou-se a criação da Datisa, uma fusão da brasileira Traffic com as argentinas Full Play, de Hugo e Mariano Jinkis, e Torneos (que neste caso usava o nome “Productora”), controlada pelo empresário Alejandro Burzaco, também já com anos de experiência no pagamento de propina para dirigentes da América do Sul.

No dia 25 de maio, só quatro dias depois de criada, a Datisa comprou da Conmebol as quatro edições seguintes da Copa América: 2015, 2016, 2019 e 2023. De novo, não houve nenhum tipo de concorrência pelos direitos. Só pela assinatura deste contrato, a Datisa distribuiria US$ 20 milhões em subornos para 11 dirigentes da Conmebol.

Esse contrato já previa os valores pelos quais a Datisa compraria cada edição da Copa América: US$ 75 milhões por 2015, US$ 80 milhões por 2019 e US$ 85 milhões por 2023. A edição de 2016, que incluía a participação de times da Concacaf, seria discutida à parte.

O que não estava escrito, mas era sabido por todos os que faziam parte desse acordo: a cada nova edição do torneio, a empresa voltaria a distribuir dezenas de milhões de dólares em propina para os dirigentes do continente.

A criação da Datisa foi formalizada no dia 21 de maio de 2013; quatro dias depois, a empresa já comprava os direitos comerciais da Copa América

Os novos sócios de J. Hawilla não sabiam que ele havia sido preso pelo FBI e estava colaborando com as autoridades americanas que investigavam um grande esquema de corrupção no futebol mundial. Orientado por promotores americanos, o brasileiro gravou reuniões com Burzaco e os Jinkis no hotel Aqualina, em Miami, no dia 30 de abril de 2014. Provocados por Hawilla, os três empresários falam abertamente sobre o pagamento de propina para dirigentes da Conmebol. Quem detalha a divisão do dinheiro é Alejandro Burzaco.

ALEJANDRO BURZACO —

Jota, nossa conta é muito fácil.

Nós damos três ao Brasil, três para a Argentina e três para o presidente. Três ao presidente. E mais: ele substituiu a Nicolas [Leoz] e já nos fez saber no primeiro dia.

Ele, no caso, é Eugenio Figueredo, que sucedeu Nicolas Leoz na presidência da Conmebol em 2013. Figueredo, que confessou ter cometido crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, está em prisão domiciliar no Uruguai. Ele seria substituído em 2014 no cargo pelo paraguaio Juan Angel Napout, que a exemplo de José Maria Marin foi condenado e está preso nos EUA. Na continuação da conversa gravada por Hawilla, Burzaco explica quanto pagava de propina para cada dirigente.

ALEJANDRO BURZACO — ao secretário-geral. E um milhão e meio para sete presidentes.

J. HAWILLA — Para os sete?

ALEJANDRO BURZACO — Sete presidentes, um milhão e meio [de dólares]. Porque há um país a quem não temos que dar nada

J. HAWILLA — Por que?

ALEJANDRO BURZACO — Porque é honesto. E agora acabam de expulsá-lo.

MARIANO JINKIS — Acabam de expulsá-lo porque é o único…

ALEJANDRO BURZACO — Então nunca demos nada a ele. E economizamos esse dinheiro.

O “honesto” citado por Burzaco é Sebastian Bauzá, ex-presidente da Associação Uruguaia de Futebol (AUF), que se recusou a assinar o contrato com a Datisa. Procurado pelo GloboEsporte.com, Bauzá afirmou que não dá entrevistas para veículos de outros países.

Os contratos e os grampos mostram que o esquema de corrupção se tornou mais abrangente ao longo do tempo. Os presidentes da Conmebol e das federações de Brasil e Argentina ainda eram os mais caros na prateleira dos cartolas, mas os outros também tinham que ser comprados.

Numa conversa gravada por J. Hawilla, o argentino Mariano Jinkis, dono da Full Play e 31 anos mais jovem que seu interlocutor, explica ao empresário brasileiro que houve uma mudança geracional na cartolagem e que por isso seria preciso pagar mais dinheiro a eles.

MARIANO JINKIS —

Jota. Hoje os presidentes

sabem que vamos ganhar US$ 100 milhões [de lucro]. Os presidentes têm internet. Não são Nicolas Leoz. Têm internet. Eles se falam por Facebook. Falam com os clientes em cada país.

Em outra gravação do dia 30 de abril de 2014, em Miami, os empresários contam detalhes do pagamento de propina para dirigentes da Conmebol e da Concacaf em troca desses contratos. Instigados por Hawilla, que atuava como um agente dos investigadores americanos, Burzaco e Hugo Jinkis comentam as possíveis consequências de seus atos.

J. HAWILLA —

Quem pode ser prejudicado

com esta coisa?

ALEJANDRO BURZACO — O que você quer dizer? Com este contrato? Com este assunto? Todos. Se vem a…

J. HAWILLA — Prejudicado. Quem pode ser prejudicado com isso? Alguém? Conmebol pode sofrer algum prejuízo com isso?

ALEJANDRO BURZACO — Todos podemos sair prejudicados com isso. Todos. Amanhã vem a agência de lavagem de dinheiro de Buenos Aires, para citar uma. Ou a do Brasil, ou o DEA, ou qualquer uma. E dizem: “O que são todos esses pagamentos? Isso não tem consistência”. E começam a rastrear. […] Vamos todos presos. Todos, todos, ele, você…

HUGO JINKIS — É o risco do nosso negócio.

Burzaco estava quase certo. Todos os participantes desta reunião tiveram algum tipo de problema com a Justiça, mas em graus bem diferentes. J. Hawilla, que havia sido preso um ano antes, continua até hoje colaborando com as autoridades americanas. Ele está no Brasil, com autorização do Departamento de Justiça dos EUA, e tem que voltar a Nova York para ouvir sua sentença, prevista para ser divulgada em outubro de 2018.

Os outros três empresários foram indiciados pelo Departamento de Justiça dos EUA em 27 de maio de 2015, mas tomaram atitudes diferentes: Burzaco se entregou dias depois na Itália, foi extraditado para os EUA e virou um dos maiores delatores do “Caso Fifa”. Procurado, seu advogado não quis comentar as gravações feitas por J. Hawilla.

Hugo e Mariano Jinkis chegaram a ser detidos na Argentina, mas o país se recusou a extraditá-los para os EUA. Os dois hoje estão em liberdade. O advogado que os defende na Argentina afirmou ao GloboEsporte.com que eles não falam com a imprensa sobre o caso.

A Conmebol implodiu depois que o “Caso Fifa” se tornou público. Seus três últimos presidentes – Nicolas Leoz, Eugenio Figueredo e Juan Angel Napout – são acusados de corrupção. Vários ex-integrantes do Comitê Executivo confessaram ter recebido subornos e se tornaram colaboradores da Justiça dos EUA.

A atual direção da entidade contratou uma auditoria externa, que fez uma devassa nas contas e constatou um rombo de US$ 129 milhões. O resultado da auditoria foi entregue ao Ministério Público do Paraguai, que abriu uma investigação contra os três ex-presidentes.

O resultado dessa auditoria e outras provas colhidas pelas autoridades americanas no Paraguai foram encaminhadas ao Ministério Público Federal no Brasil. A procuradoria afirma estar investigando as conexões brasileiras do escândalo, mas não dá informações porque o caso está sob sigilo.

O contrato entre Conmebol e Datisa continua válido.

 

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