Quando eu apitava, entrava dentro do “personagem”: sujeito sisudo, antipático, de pouca conversa (tentando falar grosso devido à voz horrorosa), mas sempre educado e respeitoso, reconhecidamente. Isso era promover a autoridade, sem cair para o autoritarismo. Era ser discreto, sem querer parecer, procurando deixar o protagonismo do jogo de futebol a quem merece: os craques.
Digo isso pois fora do uniforme eu voltava a ser o sujeito sorridente, afável e extremamente atencioso. Afinal, dentro de algumas funções você precisa mudar o seu nível de simpatia e intimidade. É extremamente normal essa criação de um personagem.
Jorge Emiliano, o “Primeiro Margarida” do futebol brasileiro, abusava dos trejeitos. Todos entendiam ele, pois tinha ótima qualidade enquanto árbitro e sabiam da sua questão particular que era ser homossexual, tornando-se até mesmo folclórico em uma época em que o tabu era gigantesco.
Dulcídio Wanderley Boschilla, o “Alemão”, era aquilo que se via. Mandava o jogador “para a casa do chapéu” e recebia outros insultos de volta. Mas o atleta entendia essa permissão e a dava para ele também. Idem a Oscar Roberto Godoi. Estes, eram unhas-de-cavalo (e isso não é ofensa, é elogio).
Mas alguns exemplos de teatralização do árbitro que não deram certo: Heber Roberto Lopes, no início de carreira, parecia que queria agredir o jogador quando aplicava o cartão amarelo ou vermelho! Era de uma estupidez assombrosa! Corrigiu isso muito bem, minimizando os trejeitos teatrais que mostravam rigor e ao mesmo tempo excesso de poder.
Enfim, digo tudo isso ao assistir um pedaço do jogo Avaí x Corinthians. O que o juizão Ricardo Marques Ribeiro quer fazer com tantas caras-e-bocas, desprezando totalmente a necessidade em ser discreto, criando um personagem que não sai dele? Alguém da Comissão de Árbitros da CBF precisa falar a ele que não pode representar um personagem tão caricato! Ou ninguém até agora falou?
Impossível que na Conmebol ou na FIFA não tenham dado um puxão-de-orelha nele. Ou até deram, vide o número de escalas atuais nas competições organizadas por essas entidades.
Ricardo, um conselho de amigo: respeito totalmente seu trabalho e sua pessoa digna, mas pare de querer atuar de tal forma, pois acaba caindo na ironia! Se alguém não te passou um feedback, peçam para gravar as transmissões de Rádio e TV das partidas que você tem apitado. Vai por mim, ser discreto ajuda na credibilidade!

Jorge Emiliano. Reprodução: Internet
