– Meus 6 dias na cadeia.

Eu vivi nesses últimos dias uma experiência bem diferente: lecionei na Penitenciária de Bragança Paulista (seis manhãs) a um grupo de 20 reeducandos. A temática: “Seja a mudança de sua vida”, falando de ações empreendedoras em busca de recomeços!

Essas aulas foram pelo Sebrae em parceira com a FUNDAP, organizadas pela IBS Americas. E me impressionei com a excelente proposta pedagógica oferecida a mim, bem como a qualidade do material sugerido, escolhido “a dedo” para o trabalho.

Como a maioria dos brasileiros, eu nunca tinha estado numa cadeia. E a sensação não foi de medo, mas de tristeza. Explico: ali é um Centro de Ressocialização, e meus alunos foram os considerados “quase-prontos” para voltar à sociedade, com tempo de pena quase cumprido à totalidade. Todos estavam lá por bom comportamento.

Fui orientado a ir com camisas que não fossem das cores: amarelo, branco e cáqui, por motivo de serem as cores padrões das roupas de quem está vivendo o cárcere. Me pediram para tomar cuidado com o vocabulário: palavras como executar, pena, morte e várias outras deveriam ser evitadas, pois poderiam remeter a lembrança de crimes cometidos. Vestuário mais simples, sem relógio, corrente ou qualquer outro metal. Celular ou outro equipamento que seja de comunicação, nem pensar. Na mão, apenas as folhas das aulas.E para adentrar à instituição, passei pela revista e pelo detector de metais.

Todos esses cuidados são necessários, embora ali fosse uma penitenciária de segurança mínima. São regras e devemos cumprir.

Quando chegou a hora de sair da recepção à sala de aula, fui encaminhado para entrar na área dos detentos. Meu Deus… que sensação horrível! As celas são escuras, com camas em L em 3 andares, entre corredores estreitos. Deve ser sofrível dormir naquele lugar pequeno e coletivo. E ficar o dia inteiro por lá? Ver as pessoas lá dentro foi um choque, confesso que me senti mal. 

Cheguei à sala de aula e ali estavam 20 pessoas me esperando. Um reeducando-monitor (com faculdade e pós-graduação, empresário e extremamente esclarecido cidadão) me orientava sobre as regras. É uma função especial dentro das cadeias, onde os presos têm respeito inconteste com ele.

Lá encontrei: professor, garçom, apicultor, vereador, peão de boiadeiro, empresário, pedreiro, serralheiro e farmacêutico, das profissões que me lembro. A idade era de 20 a 60 anos. E ao vê-los, é impossível saber por qual crime estão pagando (e nem tive a curiosidade de perguntar, minha função era ajudá-los a recomeçar, e não falar sobre o que fizeram de errado, mas sim do que farão certo).

Olhos brilhando, sedentos de vontade de conversar, com histórias das mais diversas. Sonhadores, esperançosos e curiosos. Não tem como negar: fiquei impressionado em várias momentos. Por exemplo: um proprietário de Buffet me mostrou as cartas da família que recebia, com mensagens da neta. Conversando visivelmente emocionado sobre um determinado assunto que abordei (relacionei eles com os exemplos necessários de lisura e confiança), o Sr J. virou para mim com os olhos marejados e me disse: “Eu errei, foi uma só vez, e nunca mais farei nada parecido com esse erro”. Outro, o pintor F, me contou sobre a luta da esposa para visitá-lo, pois havia um custo de R$ 500,00 para cada viagem que ela fazia, e isso o entristecia demais. Um terceiro, o P, estava preocupado (e trabalhei bastante essa questão com ele) sobre o preconceito que teriam com ele fora do sistema carcerário.

Não é “Síndrome de Estocolmo”, nem paixão por bandido. É sentimento de que ali estão seres humanos que erraram, tornaram-se bandidos por uma oportunidade e estão arrependidos. São gente como a gente, e estão pagando por seus crimes. E querem conversar sobre tudo. Um deles não sabia o que era Pop-it (aquelas borrachas que imitam os plásticos bolhas). Outro não acreditava que o preço do gás estava acima de R$ 100,00! Ainda outro “rachou o bico de rir” ao saber que havia sido lançado um McPicanha que não tinha picanha, e ninguém foi preso como eles (brincadeira deles próprios). E por aí vai.

Durante as aulas, um respeito máximo. Todos querendo aprender e futuramente empreender. E algo bem curioso: você entra cheio de preconceitos no primeiro dia, imaginando algemas, rostos carrancudos, detentos com olhar duvidoso, e não tem nada disso! Nessa unidade (um centro de ressocialização) a coisa fluiu muito bem.

Lembro: eu sei que não dei aula para “santinhos injustamente trancafiados”, mas sei também que são pessoas pagando pelos erros e que todos nós merecemos uma segunda chance. Mostrar a eles que os equívocos devem ser esquecidos enquanto punitivos (mas lembrados como algo a ser evitado) e que vale a pena a vida honesta, de trabalho e com liberdade plena, foi algo muito confortante. Uma experiência que me faz entender o que Jesus Cristo quer falar em “ser caridoso” quando nos ensina a cuidar dos encarcerados, dizendo “estive preso e vieste me visitar”. Não deve ser nada fácil a rotina de quem cuida deles…

Por fim: junto a um dos reeducandos que não era eu aluno, quando terminei o último dia, ao me despedir, vi a luz do dia raiando na porta de saída (lá dentro não tem janelas, só são paredes e ventilação pelos furos de tijolos baianos, tornando o local escuro – e quando eu vi um “clarão de sol” na hora de ir embora, a sensação foi ótima), perguntei a ele se faltava muito tempo para sair do sistema penitenciário, e ele abriu um sorriso e respondeu: “Sim, só falta cumprir mais dois anos”!

Estar 4 horas diárias por 6 dias foi um período longo na cadeia, mesmo como visitante, pelo sistema em si. Imagine ficar “só” mais dois anos…

Torço para que as pessoas prejudicadas por esses detentos estejam gozando de plena tranquilidade e tenham reconstruído a vida. E para os próprios presidiários, desejo que quando eles saiam de lá, possam mostrar que são homens melhores para um mundo que lhes dê uma segunda chance!

Foto: Adécio Piran, divulgação de: https://www.folhadoprogresso.com.br/santarem-detento-e-encontrado-morto-em-penitenciaria/

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