O que leva uma pessoa a alugar um carro de som e fazer chantagem emocional contra as pessoas, usando a vacina como mote?
Será que, de tanto ouvir bobagens, muitos acreditam e resolvem comprar ideias, tornando-se militantes delas?
Um artigo sobre isso, extraído de Folha de São Paulo, ed 31/01/2022, pg 3
A BANALIZAÇÃO DA MENTIRA
Por Ana Cristina Rosa
Já se perguntou o quanto um ato corriqueiro pode estar impregnado de vilania e perversidade? Em meio ao agravamento da pandemia no Brasil, não bastasse a ausência de uma campanha oficial de esclarecimento, um empresário gaúcho resolveu pagar para prestar um desserviço público. Colocou dois carros de som a fazer propaganda antivacinação infantil contra a Covid em Novo Hamburgo.
Dos alto-falantes, ouvia-se: “Atenção, pais. Nós todos temos o dever de saber que não é obrigatória a vacina experimental em nossos filhos. (…) E os fabricantes não garantem a eficácia (…). A escolha é sua, pai!”. Mentiras deslavadas.
Entidades científicas mundo afora já atestaram que os imunizantes aplicados contra o coronavírus no país são seguros e eficazes. Além disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente prevê a obrigatoriedade da vacinação nos casos recomendados por autoridades sanitárias.
Vacinas são a melhor arma para preservar vidas frente à pandemia. Tanto que a maioria dos casos graves e das mortes pela variante ômicron têm ocorrido entre quem não tomou o imunizante ou não completou o esquema vacinal.
A Covid-19 está entre as dez principais causas de mortalidade infantil segundo o Ministério da Saúde. Matou mais de 1.500 crianças e causou 2.400 casos de Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica no Brasil. Há estimativas que apontam números superiores.
Diante dos fatos e na ausência de uma campanha oficial de esclarecimento, é aterrorizante que para algumas figuras públicas o perfil do dito “cidadão do bem” corresponda ao de disseminadores de mentiras com potencial letal. Nas redes sociais, teve deputado federal apoiando e qualificando o empresário como “patriota”.
Num cenário de agravamento da pandemia, quem espalha fake news antivacina ameaça a saúde pública, em tese pode responder por apologia ao crime (infração de medida sanitária preventiva) e jamais deveria ser tomado como modelo de cidadão que ama a pátria.

Imagem extraída de: https://www.uol.com.br/vivabem/reuters/2022/01/24/terceira-dose-de-outra-vacina-apos-coronavac-oferece-reforco-maior.htm

Interesses escusos? Já vi quem era contra ficar a favor por conta das circunstâncias de seu negócio, voltar a ser frontalmente contra, e agora ser a favor novamente no maior estilo “a vida continua”. Caráter não se vende em farmácias e nem em bancas de jornal. Por isso é tão difícil encontrar pessoas que o tenham.
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