– Uma SAF não é garantia de nada?

Quer entende mais sobre SAF (se é uma boa ou uma ruim)?

Vale esse texto espetacular:

Extraído de: https://www.linkedin.com/pulse/vende-se-ilus%C3%A3o-o-momento-de-negocia%C3%A7%C3%B5es-clubes-cesar-grafietti-s19le/?trackingId=rpfPO7U0TTmr%2B96YhUuJPg%3D%3D

VENDE-SE ILUSÃO: O MOMENTO DE NEGOCIAÇÃO DOS CLUBES DE FUTEBOL.

Por César Grafietti

Venho insistindo no alerta de que investir em futebol não é fácil. Toda indústria tem seus desafios, mas nenhuma opera um mercado que tem na paixão um componente importante, cuja disputa do market-share começa do zero todos os anos e quem tem menos dinheiro corre mais riscos de ser expurgado e levado a mercados menores e nada rentáveis. Sem contar que, mesmo aplicando todas as melhores práticas de gestão,  analytics, scouting, e atuar com bons profissionais, ainda assim a bola entra ou sai por acaso.

Para além disso, é um mercado que demanda que você esteja nas melhores estruturas competitivas (divisões), mas se não for compatível com ela em termos de porte, acessos e economia local, a chance de sucesso é casual e raramente perene. Ah! A forma mais eficiente de ganhar dinheiro é desenvolvendo e transferindo ativos cuja “taxa de perda” é elevada.

Assustei, né? Não é para tanto. Na verdade, essa introdução serve apenas para alertá-los sobre a imensa quantidade de vendedores de ilusões que acham que fazer futebol é simples, basta governança e compliance, que monetizar a torcida é só uma questão de tecnologia, para ter exposição coloca-se tudo no Youtube, e o futuro é abrir capital de clubes. “Tem muito mato alto”, dizem os que acompanham futebol pelo feed das redes sociais.

E são eles os responsáveis pela falta de investimentos no futebol. Hoje no Brasil há muito mais associações buscando capital que investidores interessados. Temos um problema de conexão entre as partes criado pelo excesso de facilidades vendidas pelos encantadores de serpentes.

Entre tantas, há duas falácias que impactam negativamente o mercado:

  • Vamos chegar na elite do futebol em 5 anos.
  • Vamos investir R$ 500 milhões.

E isso gera falsa expectativa nas associações, que querem projetos ousados e números grandes para justificar que fizeram um bom negócio, quando deveriam procurar projetos sustentáveis e estruturados no tempo, com objetivos sensatos.

Vamos aos fatos: a Série A tem 20 clubes, e cerca de 14 deles faturam acima do hurdle de risco de rebaixamento, que para 2026 deve ser na casa dos R$ 250 milhões. Ou seja, quem fatura menos que isso tem maior probabilidade de rebaixamento que os demais, conforme estudo que faço há anos e publico anualmente no Relatório Convocados.

Na Série B de 2026 a receita mediana deve ser da ordem de R$ 30 milhões, com o Top 5 acima de R$ 120 milhões. Ou seja, se o clube investido chegar à Série B após ter passado pelos muros das Séries D e C, cada vez mais difíceis pelos formatos e inflacionados pelo aumento de gastos com e sem lastro, encontrará uma terceira zona de contenção e dificuldades.

Um projeto sério, baseado em análise do comportamento das competições nos últimos 15 anos, que é como trabalhamos nossas propostas, deveria considerar pelo menos 3 anos para sair da Série D, mais 3 para sair da C. Ou seja, são 6 anos apenas para chegar numa divisão que é fronteira da elite, e custa cada vez mais caro (mostrei isso em artigo recente). E para isso é preciso capital humano e financeiro.

Se o clube está numa cidade com menos de 200 mil habitantes e média de público abaixo de 3 mil pessoas, sem uma economia pujante que permita construção de parcerias e desenvolva as receitas comerciais, então o projeto está em risco. E quando forem ver o business plan, está calcado apenas na formação e transferência de atletas, cujos valores em divisões inferiores não geram caixa necessário para suportar a operação. Para “fechar a conta”, utilizam-se valores de venda de jogadores muito acima do razoável para as divisões.

Vende-se ilusão, e geralmente associada a números irreais, que quando depurados não são nada do que se postou em rede social. Muitas vezes são cobertos por dívidas e não por capital, e isso gera mais pressão na estrutura. Mas o dirigente que “vendeu” a SAF diz que fez o melhor negócio do mundo.

As justificativas são sempre as mesmas: opera-se na exceção para criar a regra. No Brasil usam o Cuiabá e o Mirassol como exemplos de que pode funcionar. O Cuiabá caiu para a Série B e segue por lá, enquanto o Mirassol teve ano de sonho por conta de um trabalho fantástico – inclusive, é dos poucos clubes que não possuem qualquer dívida em atraso – mas que agora já se vê dentro do que é esperado: fez um Paulistão comum, tem o desafio da Libertadores e o início do Brasileirão não aponta nada promissor. Não é falha; é realidade.

Ou então precisamos voltar aos anos 80, quando a primeira divisão tinha 90 clubes. Talvez haja espaço para todo mundo que quer operar na elite.

Isso também vale para projetos no exterior. Tem sido bastante comum me deparar com projetos em que se vende a ideia de fazer gestões austeras em clubes de divisões menores, e ainda assim ser capaz de atingir desempenho para levá-los ao topo das ligas. Os exemplos são sempre os mesmos: Wrexham, Luton Town, Atalanta, Como.

Nenhum deles serve de exemplo porque são exceções. O Wrexham é um projeto de mídia, e se você não é o Ryan Reynolds, esqueça. O Luton Town investiu £ 18 milhões no ano em que subiu para a Premier League, e dois anos depois está na terceira divisão. A Atalanta recebeu investimentos por 10 anos antes de colher resultados, e o Como tem donos bilionários que já investiram mais de € 200 milhões nos últimos 4 anos, o que não parece nada austero.

Projetos na Europa demandam análise e planejamento justo. É preciso fazer tudo aquilo que comentei mais acima – estrutura, profissionalismo, aplicação de processos corporativos de gestão dentro e fora de campo, e ter pessoas qualificadas – e capital para compor a conta. Ah! E tempo. Não há projeto sério e consistente que não considere o tempo como variável fundamental.

O que mais me incomoda nas conversas sobre futuro e investimento no futebol é a facilidade como as soluções são propostas. Especialmente quando colocadas por quem não é do segmento, nem sabe o grau de dificuldade da atividade. O futebol não é uma indústria comum, e por isso é mais difícil, mas permite retornos assimétricos quando o negócio é estruturado da maneira correta.

Atenção com quem fala sobre futebol sem ter vivido e entenda sua realidade por dentro. A não ser que você goste de soluções fáceis para problemas complexos. Haverá sempre alguém vendendo a Torre Eiffel.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.