– O suicídio do Padre Matthew Balzano e a questão da depressão no Clero.

Na Itália, o padre da Diocese de Novara, Matthew Balzano, 35 anos, se suicidou. O noticiário que vem do Velho Continente diz, resumidamente, que o sacerdote “enfrentava depressão, pressões pessoais, e críticas sobre seus desafios emocionais que, segundo pessoas próximas, tornaram-se um peso insustentável”.

Isso é muito preocupante. Aqui no Brasil, recentemente, tivemos um episódio parecido com o padre Rosalino de Jesus Santos, 34 anos, de Corumbá. Encontrado enforcado, deixou a mensagem: “noites traiçoeiras….até aqui não faltou em mim esforço, Dei o meu melhor, mas tenho remado muito a favor de maré, e tenho permitido que a ela me leve… momentos de revolver tudo, de tomar uma nova decisão…me ajude Senhor.”.

A depressão é um dos grandes problemas do novo século, e que a sociedade ainda não sabe bem como lidar. A pressão ao invés do acolhimento e a negação por parte de pessoas próximas (“frescura”, “isso passa” ou “não é nada” são expressões que maltratam o próximo) fazem com que os quadros se agravem.

Abaixo, em especial, uma matéria sobre o assunto dentro da Igreja, extraído de: https://professorrafaelporcari.com/2023/02/27/a-depressao-no-clero-um-assunto-preocupante/

A DEPRESSÃO NO CLERO

O Caderno Viva Bem, do Uol, traz pela jornalista Luiza Vidal uma matéria muito interessante sobre Padres que sofrem com depressão.

Você pode acessar o conteúdo nesse link: https://www.uol.com.br/vivabem/reportagens-especiais/saude-mental-dos-padres/

Me chamou a atenção o número de suicídios entre religiosos (vide na reportagem acima). E sobre isso, a frase de um professor e padre especialista sobre o assunto.

“O endeusamento dos padres é um fator de risco porque não somos especiais, super-homens. Somos humanos e falhos. A comunidade católica não pode se escandalizar com isso.”

Licio de Araújo Vale, especialista em prevenção ao suicídio, padre e professor

Que rezemos pelos nossos sacerdotes!

SAÚDE MENTAL DOS PADRES

Muitos pensam que os padres são verdadeiros “super-heróis”, sempre calmos e serenos. Mas os sacerdotes são como todos nós: adoecem, ficam tristes, estressados, têm depressão e podem encontrar o fundo do poço. Não há fé que os proteja disso.

Um exemplo entre muitos é Patrick Fernandes, de 35 anos. Em 2019, o padre apresentou sintomas da depressão. Não tinha vontade de fazer nada, mal queria sair da cama. Emagreceu e passou a descuidar da própria aparência.

Patrick não conseguia se concentrar nas atividades da Paróquia São Sebastião, em Parauapebas, sudeste do Pará, onde vive. Começou a faltar a compromissos e inventar desculpas para ficar cada vez mais isolado. Era um verdadeiro “sacrifício”, nas palavras dele, ouvir as pessoas e até celebrar missas. Perdeu o prazer no que, antes, era motivo de alegria.

O que eu mais gostava era chegar em casa e ir para o quarto, torcendo para que não houvesse o amanhã. Assim, não precisaria enfrentar tudo de novo. Padre Patrick

Uma psicóloga que frequentava a paróquia notou que Patrick não estava bem. Ela ofereceu ajuda, mas o padre não aceitou, pois só queria ficar cada vez mais afastado das pessoas.

O sacerdote só resolveu fazer algo após o que define como “a noite mais longa” de sua vida. “A dor chegou com muita força”, disse o padre.

Conversou com a psicóloga e reagiu. Recebeu o diagnóstico de depressão de um psiquiatra, começou a fazer terapia e a usar medicamentos.

Motivos por trás do adoecimento

Apesar de a depressão nem sempre precisar de um gatilho, vários fatores podem explicar o adoecimento de um padre. Juntos, esses fatores formam uma verdadeira bola de neve, favorecendo o surgimento de transtornos mentais:

  • São homens e, por isso, têm mais dificuldade em reconhecer fragilidades;
  • Vivem em uma instituição exigente e com estrutura hierarquizada;
  • Vida extremamente solitária;
  • Falta de contato com outros padres;
  • Necessidade de estar disponível por 24 horas;
  • Excesso de cobrança da Igreja e da sociedade;
  • Acúmulo de trabalho;
  • Forte envolvimento com problemas e dificuldades dos fiéis;
  • São vistos como “super-homens” e, portanto, não conseguem demonstrar fraqueza e pensam que dão conta de tudo.

Ênio Brito Pinto, psicólogo que trabalha com atendimento de padres no Instituto Acolher (SP), explica que, mais do que os líderes religiosos, é a estrutura que precisa mudar.

Não adianta mudar o indivíduo se não há mudanças no meio em que ele vive. São muitos padres que são internados, por exemplo, e voltam depois de uns seis meses para a igreja. Eles chegam com mais animação e, após alguns meses, perdem tudo porque o ambiente é tóxico. Ênio Brito Pinto, psicólogo

Para ele, a Igreja não dá autonomia aos padres: não há espaço para discordâncias e críticas. “Sem autonomia, não há saúde. A boa obediência é aquela que é crítica”, diz o também doutor em ciência da religião pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Falta de estudos científicos

Não há muitas pesquisas recentes que investiguem a saúde mental de padres, principalmente no Brasil. Até existem cientistas e líderes religiosos que escrevem artigos ou livros sobre o tema, mas com limitações.

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), por exemplo, disse que se preocupa com o tema e há um estudo em andamento, mas não detalhou data de divulgação ou a motivação por trás do trabalho.

Ana Maria Rossi, psicóloga e presidente do Isma (International Stress Management Association) Brasil, resolveu estudar o assunto no país em 2008. O foco era entender as profissões que mais causavam estresse entre os brasileiros. Quando resolveu incluir padres e freiras, encontrou muitos obstáculos.

“É difícil conseguir dados, principalmente entre os padres que vivem enclausurados. Já os padres diocesanos que fazem trabalhos comunitários são mais acessíveis”, fala Rossi. Até por isso, não foi possível fazer um levantamento mais recente incluindo o primeiro grupo.

Outros pesquisadores consultados por VivaBem citam como dificuldades a questão de ser um assunto tabu e por envolver uma instituição como a Igreja. Os padres simplesmente não se sentem confortáveis para falar sobre saúde mental.

Ênio Brito Pinto, autor do livro “Os Padres em Psicoterapia” (Editora Ideias & Letras), diz que há uma complexa relação entre os temas religião, instituição religiosa e as pessoas da vida religiosa, que precisa ser estudada cientificamente.

“Há incontáveis estudos sobre a religião, há muitos estudos sobre a instituição, cresce o número de estudos sobre os religiosos, mas faltam estudos sobre as relações entre os três vértices desse triângulo”, diz o especialista.

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