– Quando Abrimos a Caverna Escura de Nossa Existência

 

Por Padre Otacílio F. Lacerda, extraído de: http://peotacilio.blog.terra.com.br/2011/03/01/

 

Quando nos colocamos diante das Confissões do Bispo Santo Agostinho (Séc. V) sentimos algo estremecer no mais profundo de nós, nas entranhas de nosso coração. Ele consegue fazer com que abramos a caverna escura de nossa existência para que, pela Luz Divina, seja iluminada. Consegue como poucos expressar nossa pequenez diante da Onipotência Divina que nos conhece muito mais do que nós a nós mesmos.

Imediatamente façamos de sua Confissão a nossa, e sentiremos o mais desejado deleite da alma.

  

“Que eu Te conheça, ó conhecedor meu! Que eu também Te conheça como sou conhecido! Tu, ó força de minha alma, entra dentro dela, ajusta-a a Ti, para a teres e possuíres sem mancha nem ruga. Esta é a minha esperança e por isso falo. Nesta esperança, alegro-me quando sensatamente me alegro. Tudo o mais nesta vida tanto menos merece ser chorado quanto mais é chorado, e tanto mais seria de chorar quanto menos é chorado. Eis que amas a verdade, pois quem a faz, chega-se à luz. Quero fazê-la no meu coração, diante de Ti, em confissão, com minha pena, diante de muitas testemunhas.

A Ti, Senhor, a cujos olhos está a nu o abismo da consciência humana, que haveria de oculto em mim, mesmo que não quisesse confessá-lo a Ti? Eu Te esconderia a mim mesmo, e nunca a mim diante de Ti. Agora, porém, quando os meus gemidos testemunham que eu me desagrado de mim mesmo, enquanto Tu refulges e agradas, és amado e desejado, que eu me envergonhe de mim mesmo, rejeite-me e Te escolha! Nem a Ti nem a mim seja eu agradável, a não ser por Ti.

Seja eu quem for, sou a Ti manifesto e declarei com que proveito o fiz. Não o faço por palavras e vozes corporais, mas com palavras da alma e clamor do pensamento. A tudo o Teu ouvido escuta. Quando sou mau, confessá-lo a Ti nada mais é do que não O atribuir a mim. Quando sou bom, confessá-lo a Ti nada mais é do que não O atribuir a mim. Porque Tu, Senhor, abençoas o justo, antes, porém, o justificas quando ímpio. Na verdade minha confissão, ó meu Deus, faz-se diante de Ti em silêncio e não em silêncio porque cala-se o ruído, clama o afeto.

Tu me julgas, Senhor, porque nenhum dos homens conhece o que há no homem a não ser o espírito do homem que nele está. Há, contudo, no homem algo que nem o próprio espírito do homem, que nele está, conhece. Tu, porém, Senhor, conheces tudo dele, pois Tu o fizeste. Eu, na verdade, embora diante de Ti me despreze e me considere pó e cinza, conheço algo de Ti que ignoro de mim.

É certo que agora vemos como em espelho e obscuramente, ainda não face a face. Por isto enquanto eu peregrino longe de Ti, estou mais presente a mim do que a Ti e, no entanto, sei que és totalmente impenetrável, ao passo que ignoro a que tentações posso ou não resistir. Mas aí está a esperança, porque és fiel e não permites sermos tentados acima de nossas forças e dás, com a tentação, a força para suportá-la.

Confessarei aquilo que de mim conheço, confessarei o que desconheço. Porque o que sei de mim, por Tua luz o sei; e o que de mim não sei, continuarei a ignorá-lo até que minhas trevas se mudem em meio-dia diante de Tua face”.

 

Diante de uma Confissão desta, o silêncio é imperativo: calem-se os ruídos e clamem os afetos.

 

Nada há oculto aos olhos de Deus. Ele nos conhece com todas as nossas imperfeições e perfeições; limitações e potenciais; sombras e luzes; clamores e silêncios; quedas e  levantamentos; passos firmes às vezes, por outras vacilantes; palavras iluminadas e por vezes palavras que ofuscam a luz que no outro habita.

 

Com Santo Agostinho podemos dizer:

 

É próprio do Amor de Deus nos aceitar como somos, para que, por Suas mãos sendo moldados, sejamos aperfeiçoados.

É próprio do Amor de Deus conhecer a quem ama. Nada lhe é oculto, ainda que o queiramos. Deus quer tão apenas que não nos fechemos a Ele, que não O ignoremos, porque seria a auto-ignorância, sendo que a sua imagem fomos mais que pensados, criados…

 

Que diante de Deus não tenhamos medo de abrir as portas da caverna de nossa existência, para que Sua luz nos ilumine, e iluminados por Deus, luminosos sejamos… Pois, é também próprio do Amor Divino que seguindo o Amado Filho, jamais nas trevas caminhemos, pois Ele mesmo disse – “Quem me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida.” João 8,12.

Peregrinos longe do Senhor ainda, mas Ele jamais longe de nós. Procuremos por Ele e seremos encontrados. Procuremos e encontraremos. Bem outro se transforma o nosso peregrinar…

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.