APEDEUTAS, AS PESSOAS QUE TÊM DIFICULDADE EM RESPEITAR OPINIÕES CONTRÁRIAS
por José Renato Sátiro Santiago
Costumo acatar, como importantes premissas para minha vida, os valores transmitidos pelos meus pais, bem como as lições aprendidas ao longo dos meus mais de meio século de vida. Minha avó Noelzinda, uma mulher que fez história na cidade de Fortaleza, em meados do século XX, em um tempo quando a presença masculina era quase unânime, sempre pautou aos seus netos para que jamais devêssemos deixar de darmos nossos pontos de vista em quaisquer situações. Para ela, ser ouvida era muito importante. No entanto, havia algo ainda mais valioso, segundo o entendimento dela, ouvir. Mais que isso, considerar o que você ouviu. Professora austera, ela costumava afirmar que a maneira mais eficiente de aprender era ouvindo o que as pessoas se dispunham a falar. Fosse o que fosse, para ela, “as pessoas nos presenteiam com conhecimentos quando compartilham suas opiniões, sobretudo quando elas se diferem das nossas”. Acredito muito nisso. Ainda assim, algumas questões a respeito disso, sempre passeiam em minha mente, ainda mais no que diz respeito a retrucar aquilo que nos fere os ouvidos. Às vezes, até a nossa alma.
Seo Demétrio trabalhava na casa dos meus avós desde adolescente. Analfabeto, fez questão que todos os seus filhos estudassem. “Quero para eles, o melhor que não tive, o estudo”, costumava dizer. Diariamente, bem cedo, quando ainda estava escuro, se encontrava com meu avô, junto à janela do seu quarto, para definir as atividades que faria ao longo do dia. Conversavam por volta de uma hora. Já com o sol acordado, partia para o trabalho. Sempre foi incansável. Após certo tempo, passou a levar um dos filhos, Joaquim, para trabalhar com ele na parte da tarde, depois de sair das aulas. Quando questionado por meu avô se aquela rotina intensa de trabalho não era demais para o menino, ele respondeu “Seo Felipe, na escola ele aprende ‘as matemáticas e os portugueses da vida’, aqui ele vai aprender a viver”. Talvez alguns exageros em sua afirmação. Mas caberia ao tempo pautar isso.
Certa vez testemunhei um diálogo entre Seo Demétrio e Joaquim. “Meu filho, já ouvi sua sugestão sobre como pegar sapoti, mas acredite, não há como subirmos na árvore, sem corrermos o risco de cairmos, uma vez que os galhos são muito fracos. Considere que devemos colocar um saquinho junto a um pedaço de pau para que possamos retirá-los inteiro e sem risco.” Joaquim retrucou afirmando que a forma sugerida por seu pai permitiria retirar apenas um sapoti por vez enquanto a dele propiciaria a coleta de uma quantidade muito maior. Seo Demétrio ouviu pacientemente os argumentos. Ao final, aguardou uma pausa maior de seu filho e relatou: “Quinho, entendi seu ponto de vista, podemos fazer algo de forma segura e coletar menos ou pegar muito mais sapotis e corrermos o risco de machucarmos.” Mal acabou de ouvir seu pai, Joaquim devolveu: “Pai, você está por fora, vá por mim, estou certo”. Desta vez Seo Demétrio foi mais incisivo: “Primeiro pense no que as pessoas falam antes de ter a audácia de julgar não apenas as palavras dela, mas elas também. Deixe de ser apedeuta”. E lá se seguiu a discussão que resultou, ao fim do dia, em um cesto cheio de sapotis inteiros maduros e pai e filho inteiros partindo para casa. Ao que parece, uma solução compartilhada, certamente, foi tomada.
Antes deles irem embora, no entanto, corri em direção ao Seo Demétrio e perguntei: “O que é apedeuta?” Seo Demétrio pareceu surpreso com a pergunta, tirou seu chapéu de palha da cabeça e falou: “Apedeuta é quem joga fora a chance de aprender com os outros”. Ressabiado com a resposta, antes até mesmo de eu compreendê-lo, ele seguiu: “Junior (assim que ele me chamava), tudo o que vale nesta vida é respeito. Ouvir e considerar o que os outros dizem é respeito. Você não precisa concordar. Mas aprendemos tanto ao respeitar. Além de ser a única forma para que possamos ser respeitados. Os apedeutas estão bem longe disso tudo. Eles não se calam diante o que não concordam, eles querem que tudo seja do jeito deles.” Pois é, Seo Demétrio era um analfabeto nas carteiras escolares, mas um doutor honoris causa na vida.
História que vivi e que sempre marcou minha vida. Muito tempo depois, fui ler mais sobre isso. Certos entendimentos me alimentaram com um pouco mais de aprendizado. Os apedeutas são pessoas que não conseguem respeitar a opinião dos outros. Eles se consideram donos da razão e têm a arrogância como a única justificativa sobre sua total incapacidade em aceitar o legítimo direito daqueles que pensam diferente deles. Possuem o cerne do autoritarismo impregnado em sua alma e por serem tão ardilosos costumam usar discursos libertários como estratégia vil para impor seus pontos de vista bem como desqualificar àqueles que não comunguem de seus pontos de vista. Pouco confiáveis, são volúveis e rasos em suas opiniões, o que as tornam de pequeno prazo de validade. Seres que jamais irão evoluir como humanos. Fugir deles não nos cabe, talvez apenas viver com eles e não permitir, jamais, que eles sejam elementos que nos mudem, afinal eles são apedeutas, não nós. Obrigado Seo Demétrio.
Antes da paralisação do planeta pelo Coronavírus, uma discussão na China era: o sistema 996 de trabalho! Relembrando:
Leio que o sistema de trabalho conhecido pelo nome de “996” (significa: trabalhar das 9h da manhã às 9 h da noite, por 6 dias da semana), praticado na China e condenado mundo afora, continua em alta por lá. Ao menos, entre os empreendedores chineses privados neste novo momento do país.
Criticado pelo desrespeito aos Direitos Humanos, pela Ditadura Comunista do Partido Único, de exploração trabalhista e de outras tantas coisas, o Ocidente Capitalista fecha os olhos por conta dos sino-dólares e pela compra de produtos baratos, à custa da mão-de-obra contestada pela extenuante cobrança.
Devido a isso, uma divisão da Microsoft, o Github, criou um projeto de compartilhamento de depoimentos com pessoas que sofrem com as péssimas condições de trabalho. E sabe, qual a motivação? A declaração do presidente do gigante global de e-commerce Alibaba, Jack Ma, que se referiu ao “996” como “uma ‘grande benção’ para os jovens da China”.
Quando ocorreu o “Dia Nacional do Orgulho Gay (25/03)”, o SPFC (assim como outros times de futebol) fizeram postagens nas Redes Sociais pedindo o fim da homofobia (e o ambiente das arquibancadas é carregado disso).
A foto da esquerda é uma postagem do São Paulo, e nos comentários, há elogios e muitas críticas, beirando a própria homofobia, e algumas mais descaradas como “desnecessário” e outras com palavrões que me recuso a publicar aqui.
A foto da direita tem uma pergunta pertinente do perfil de“Estrelinha @Lekass_”: “Me diga, se fosse 2 homens tirando uma foto dessa na arquibancada laranja?”
Enfim, a questão é: por mais que se peça respeito nas arquibancadas, haverá o machismo, o preconceito e a confusão de que “respeitar é fazer apologia”.
Parabéns por quem, ao menos, tenta respeitar e promover o respeito no futebol. E paciência pelas críticas que surgirão.
Hoje é Dia Internacional da Mulher. Sou meio contra certas comemorações, pois, afinal, deve-se respeitar as mulheres todos os dias, assim como todo dia é dia dos pais, das mães, entre outras datas.
Mas já que existe o simbolismo da data, e a necessidade de conscientização de cidadania: Feliz Dia das Mulheres!
Em nome do Sebrae, estivemos nessa tarde em Franco da Rocha, no CDP de mulheres, levando às meninas de lá capacitação em busca de trabalho honesto e reinserção.
Só com a Educação que conseguiremos bons resultados.
Vi as decisões da CBF quanto o combate ao racismo: num primeiro momento multa ao clube, em um segundo momento punição de mando de jogo e em terceiro lugar perda de pontos.
Não é muito “leve”? Elas acontecerão “pra valer”?
Desculpe, mas eu, particularmente, não acredito que funcionarão…
Compartilho este consciente e necessário texto, de dias atrás, sobre a necessidade de civilidade entre o mundo do futebol e o mundo real, abordando, inclusive, as injustificáveis manifestações discriminatórias.
Infelizmente, observa-se um mundo cada vez mais intolerante. Racismo, xenofobia, questões de gênero. Tudo isso acontece semanalmente. Uns casos têm mais repercussão, outros nem tanto. No entanto, acontecem com frequência. O de domingo, dia 16 de fevereiro, na primeira liga portuguesa, com o atleta malinês do Porto, Marega, trouxe à tona novamente o tema. Em pleno século 21, quer seja na ciência e na tecnologia, o ser humano avança. Nas relações humanas, retrocede.
Alguns estudiosos dizem que tudo isso acontece por conta do aumento do fluxo migratório, do detrimento dos vínculos de trabalho formal, do anonimato que as redes sociais e do convívio que os grandes grupos conferem. Da ameaça à rotina, às instituições, aos ritos e tradições. Da perda da identidade que o “outro” pode colocar em risco.
O que se sabe é que é impossível justificar tais atitudes. Não há motivo para isso. O futebol desde o seu início foi feito por todos e é para todos. Estas situações devem ser amplamente debatidas e as soluções postas em prática. Combater e punir quaisquer atos racistas, xenófobos e que envolvam o gênero. É medíocre e inaceitável a falta de consideração com o próximo.
(Foto: Reprodução/Divulgação)
Todos falam em “futuro melhor” e “mundo melhor”. Mas isso não será alcançado se não houver o respeito. O futebol, pelo alcance que possui e a capacidade de formar opinião, está repleto de exemplos negativos dentro e fora de campo. Por que não tratá-lo para difundir bons valores, valores humanos – comuns a todas as religiões – de respeito e harmonia? Futebol de rendimento é competitivo e o foco está no desempenho, sim. No entanto, não a todo o custo. Para isso não é preciso se olvidar dos valores: o jogo limpo.
Portanto, é preciso pensar em como queremos o mundo para as próximas gerações. Confuso, com pessoas próximas ao seu círculo sendo vítimas de intolerância? Ou mais leve, com respeito e iguais oportunidades para todos, independente da origem? O futebol tem sido capaz de transformar tanta coisa. Pode transformar o mundo.
Em tempo: o amigo leitor pode se questionar de esta coluna nada se referir nesta semana ao Marketing Esportivo. Vamos pensar que a comunicação de um clube, uma liga e uma federação no combate à intolerância é no mínimo um começo para uma grande transformação.
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Em tempo, mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:
“Esforce-se não para ser de sucesso, mas sim para ser de valor”. Albert Einstein
Turno da Tarde: estive pelo Sebrae no Complexo Penal de Franco da Rocha, levando aos reeducandos de lá algum conhecimento sobre Estratégia de Negócios, a fim de que possam sair do sistema e procurar trabalho honesto.
É com a Educação que conseguiremos bons resultados.
Estamos em Janeiro, e há a campanha “Janeiro Lilás“. Um dos motes sociais importantes é a defesa dos direitos dos transexuais. E, conforme se lê abaixo, as necessidades para essa parcela da população (especialmente pelas questões de emprego e dignidade) são sérias demais.
No dia 29 de janeiro de 2004, foi organizado, em Brasília, um ato nacional para o lançamento da campanha “Travesti e Respeito”. O ato foi um marco na história do movimento contra a transfobia e na luta por direitos e a data foi escolhida como o Dia Nacional da Visibilidade Trans.
Para celebrar e reafirmar a importância da luta pela garantia dos direitos das pessoas trans foi definido que o mês de janeiro seria inteiro dedicado à visibilidade dos transexuais. Intitulada como Janeiro Lilás, a iniciativa busca a sensibilização da sociedade por mais conhecimento e reconhecimento das identidades de gênero, com o intuito de combater os estigmas e a violência sofridos pela população transexual e travesti.
Em 2021 foi divulgado o Mapeamento de Pessoas Trans na Cidade de São Paulo, que revelou que 58% dos entrevistados – mulheres trans, travestis, homens trans e pessoas não-binárias – realizam trabalho informal ou autônomo, de curta duração e sem contrato. Entre as travestis, esse percentual sobe para 72%. O estudo foi realizado pelo Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec) junto à Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo (SMDHC). A coleta de dados incluiu 1.788 pessoas, por meio de questionário estruturado, e 29 entrevistas qualitativas com entrevistas do tipo semiestruturadas, com perguntas abertas.
Em relação à principal ocupação exercida pela população entrevistada, o destaque é a parcela elevada de travestis (46%) e de mulheres trans (34%) que se declararam profissionais do sexo, acompanhantes e garotas de programa. Esta é a principal variável sócio ocupacional que distingue as identidades de gênero, conforme avaliação que consta no documento. Entre os homens trans, praticamente, não existe a ocorrência de pessoas que se declaram profissionais do sexo e, para as não binárias, o índice foi de 3%. Dentre as entrevistadas que se prostituem, 74% já sofreram violência física.
Nome social
O nome social é aquele pelo qual uma pessoa se apresenta e quer ser reconhecida socialmente, ainda que não tenha retificado os documentos civis. Desde abril de 2016, o decreto nº 8.727 passou a reconhecer que, nas repartições e órgãos públicos federais, pessoas travestis e transexuais tenham sua identidade de gênero garantida e sejam tratadas pelo nome social.
Entretanto, ainda hoje existe bastante dificuldade em realizar a alteração do nome nos documentos em cartório. Mas, para além das mudanças legais, o preconceito e a falta de respeito ainda é a principal barreira para a adesão ao nome social. Na dúvida, pergunte como a pessoa quer ser chamada e respeite o nome e gênero que ela quer ser reconhecida. Não é difícil, é sinal de humanidade e respeito à dignidade da pessoa.
Educação e emprego
Outro objetivo é a proteção das crianças trans. Crianças e adolescentes trans não raro sofrem violência doméstica e são até mesmo expulsos de casa por suas famílias. Em uma pesquisa feita pela Secretaria de Educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABLGBT), 45% dos estudantes afirmam que já se sentiram inseguros devido à sua identidade de gênero no ambiente escolar. E ainda, com pequenas variações, de 70% a 85% da população trans já teriam abandonado a escola pelo menos uma vez na vida.
Enfrentando tamanho preconceito no ambiente escolar e por vezes na própria família, a evasão escolar é recorrente, o que fortalece o ciclo vicioso de exclusão social e exclusão do mercado de trabalho pela falta de acesso à educação e pelo preconceito dos patrões, sobrando a prostituição com um dos poucos meios de sobrevivência para 90% da população trans no país.
Iniciando as atividades em 2025 da Comunidade Diversidade e Fé, da Diocese de Jundiaí, na noite de 17 de janeiro, com início às 20h, foi realizado, na Paróquia São Roque, da Vila Progresso, o primeiro encontro mensal ordinário.
A comunidade que é composta por pais e mães, amigos e amigas, apoiadores e aliados, além de pessoas LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais e trans), com a missão de vivenciar o Evangelho de Jesus Cristo, como um espaço de acolhimento e partilha, diálogo e respeito à diversidade sexual(orientação sexual e de gênero), no âmbito religioso por meio da espiritualidade, da caridade (amor e justiça) e do estudo.
Após a acolhida com boas vindas e cânticos, iniciando o Oficio Divino das Comunidades, foi proclamado o Evangelho de Marcos (2,1-12), seguido de reflexão e partilha. Após este momento, fazendo memória da atividade realizada em novembro passado, no Sindicato dos Bancários, o Cine Pipoca, com a exibição do filme “Orações para Boby”, que aborda o tema LGBT, com a participação de bom público, que no final da exibição participou de uma Roda de Conversa, mediada pelo bispo Dom Arnaldo Carvalheiro Neto.
O encontro deste dia 17, que também contou com a participação do bispo Dom Arnaldo, teve bons momentos de partilha e dada a repercussão da exibição do Cine Pipoca, ficou definida a sugestão de visita e diálogo com os párocos, para que também as paróquias adotem a exibição do Cine Pipoca, com filmes temáticos sobre a história da Igreja.
O calendário de atividades para 2025 foi apresentado, com destaque para a formação a ser ministrada pelo GT Bíblia e Sexualidade, a ser realizado nos dias 10/03, 07/04, 05/06 e 22/06, com os temas:
– A sexualidade no Levítico, – Sodoma e Gomorra, – O livro de Judite, – Cartas de Paulo.
As formações serão ministradas das 20 às 22h, com oração inicial, exposição do tema/assessoria e Roda de Conversa.
Da programação, consta a continuidade dos encontros online/virtuais todas as primeiras segundas-feiras do mês, às 20h. As celebrações presenciais do Oficio Divino das Comunidades, todas as terceiras sextas-feiras do mês, as 20h, na Paróquia São Roque.
Sabemos que o bullying é uma triste realidade nas instituições de ensino do Brasil (e logicamente, em todos os setores da sociedade). E o que fazer para eliminá-lo definitivamente, a fim de que não cause efeitos tão nocivos como estão causando?
Na contramão da maior parte das instituições de ensino do País, que ainda não possuem práticas para coibir a discriminação, alguns colégios já adotam modelos bem-sucedidos para assegurar a boa convivência entre os alunos
Por Fabíola Perez
A imagem de um jovem cabisbaixo, isolado em um dos cantos do pátio, ou de uma criança acuada após ter sido vítima de provocações começa a se tornar rara em algumas escolas do País. Apesar de numericamente ainda serem poucas, instituições de ensino têm desenvolvido metodologias específicas para combater a intimidação e se transformado em exemplos na batalha contra a discriminação e a propagação do ódio no ambiente escolar. O caminho não é simples, mas os resultados das iniciativas mostram que é possível coibir a prática.
“Os programas anti-bullying vão desde grupos de jovens que aprendem a auxiliar as vítimas até palestras para capacitar pais e professores”
Um desses colégios é o Bandeirantes, um dos mais tradicionais de São Paulo. Lá, as estudantes Mariana Avelar, 14 anos, e Isabela Cristante, de 12, fazem parte dos grupos de ajuda do Programa de Combate ao Bullying. Elas foram escolhidas pelos demais alunos para participar de dois dias de capacitação com uma equipe de professores universitários e psicólogos.
Por meio de situações hipotéticas, o treinamento deixou claro o que é bullying e como elas deveriam agir em diferentes casos. “As pessoas mais isoladas são aquelas com gostos diferentes da maioria. Tentamos nos aproximar até que o colega se sinta confiante para conversar”, diz Mariana, estudante do 9º ano. “Aprendemos que, às vezes, o problema é maior do que parece, e precisamos levá-lo aos orientadores”, conta Isabela, da 6ª série. Os estudantes também conversam com quem presencia ou pratica o bullying. “O agressor se conscientiza mais rapidamente” , afirma Isabela.
Com pulseiras para identificação, os participantes percorrem a escola auxiliando nos casos em que percebem o isolamento. A estratégia está funcionando. “Observamos a redução de casos”, afirma Marina Schwarz, orientadora da escola. “Hoje temos mais acesso aos episódios de provocação, que normalmente ocorrem por trás das autoridades.”
Outro colégio que adotou medidas para coibir o bullying é o Soka, também de São Paulo. Há dois anos, a escola organiza palestras com advogados e psicólogos. “Conversamos com os pais sobre a responsabilidade deles em verificar os celulares dos filhos. É preciso identificar se há indícios de bullying nas conversas em grupos de redes sociais”, afirma o diretor James Jun Yamauti.
A instituição também capacitou orientadores para dar assistência a alunos que chegam de outras escolas. “Trabalhamos com jovens que tiveram dificuldade de adaptação para que tenham um entrosamento melhor”, afirma Edna Zeferino Menezes, assistente de orientação educacional. Na sexta-feira 27, a escola deu início à semana do “Preconceito Não”, com palestras sobre direitos da população negra, questões de gênero e indígenas e a trajetória da população LGBT. “A ideia é que os alunos reflitam sobre questões que interferem diretamente no bullying e identifiquem se já vivenciaram situações semelhantes”, explica Yamauti. “Os constrangimentos diminuíram bastante. Se uma brincadeira passa dos limites, deixa de ser brincadeira”, afirma Igor Seiji Ando Bomfim, 15 anos, que relata ter ajudado colegas que sofreram discriminação.
DESCONTROLE
Em um momento no qual o tema vem à tona mais uma vez após o bullying ter sido apontado pela polícia como um dos fatores que levaram um adolescente de 14 anos a atirar contra colegas em uma escola de Goiânia na sexta-feira 20, é fundamental que iniciativas como essas deixem de ser fatos isolados.
Os colégios devem começar a colocar em prática ações determinadas pela lei contra os atos de perseguição, em vigor desde abril do ano passado. Uma delas é a produção de relatórios bimestrais com eventuais casos. “O bullying não é controlado pelas autoridades pela falta de dados, o que dificulta o diagnóstico da extensão do problema”, afirma advogada Ana Paula Siqueira Lazzareschi, especialista em direito digital. Outro aspecto importante é que, além do suporte à vítima, as instituições devem oferecer assistência ao agressor.
A ocorrência ainda diária das intimidações mostra, no entanto, um descompasso muito grande entre o que faz a maioria das escolas e o que manda a legislação. Casos extremos, como o de Goiânia, evidenciam, porém, a urgência na adoção de medidas efetivas. “O bullying não pode ter sua gravidade subestimada e ser tratado como uma brincadeira de criança”, diz a advogada Ana Paula. “A cultura da vingança ainda é muito presente na sociedade e é esse desejo que está por trás do comportamento do agressor”, diz.
Terminando em tragédias ou não, casos de bullying têm efeitos indeléveis para a vítima, o agressor e toda a escola. “Ocasionam rachas nas salas de aula, colocam metade dos alunos contra o agressor e a outra parte a favor da vítima”, diz Ana Paula. Por isso, os programas de combate a práticas tão cruéis são fundamentais para reverter o aumento da intolerância em ambientes de aprendizado. Não de destruição.
DISPOSIÇÃO PARA AJUDAR
Satisfação em ver os colegas enturmados é o que move as alunas Mariana Avelar e Isabela Cristante, do 9º e do 6º ano, respectivamente, do Bandeirantes, em São Paulo. Há um ano, elas foram escolhidas para fazer um treinamento de capacitação e saber como atuar em casos de bullying. Desde então, as estudantes percorrem os espaços da escola e sempre que percebem situações de isolamento ou provocação se aproximam da vítima ou dos que testemunharam a ação. “Saber que consegui ajudar é muito bom”, diz Isabela.