A comunicação entre jogadores e árbitros numa Copa do Mundo deve ser sempre bem clara, e isso já foi um problema histórico. Por exemplo, tivemos o surgimento dos cartões (Amarelo e Vermelho inspirados nos sinais de trânsito), motivados pela conhecida confusão entre o árbitro alemão Rudolf Kreitlein e o jogador argentino Rattín, que fingia não entender que havia sido expulso.
Pois bem: isso foi se aperfeiçoando, com a introdução de gesticulação cada vez maior dos árbitros nas marcações de lances específicos (ou seja, os gestos substituíam a comunicação verbal, para que atletas, imprensa e torcedores compreendessem melhor).
Na década de 90, nas três Copas existentes optou-se por árbitros que falassem a mesma língua, facilitando a comunicação entre Árbitros, Bandeiras e Quarto Árbitro.
Mais recentemente, a FIFA determinou que obrigatoriamente aos testes físicos, escritos e técnicos, cobrasse o inglês como língua universal da Copa do Mundo. Se o árbitro não falar inglês, não apita!
Criou-se até mesmo um conjunto de frases “prontas”, para os árbitros decorarem, a fim de saberem o que se conversava. Uma espécie de subterfúgio para quem não tem fluência.
Eis que no México x África do Sul, o árbitro Wilton Pereira Sampaio, ao comunicar a decisão de expulsar um atleta sul-africano, falou com certa dificuldade seu inglês, levando a criação de memes na Internet devido às expressões dos jogadores, com dificuldade de compreensão.
Wilton voltará a campo no Noruega x Senegal, pela 2ª rodada. E fica a pergunta:
– Depois da confusão, escalou-se VAR e 4º árbitro na partida procedentes da… Austrália.
Fico imaginando: com o sotaque da Terra dos Cangurus, se o quarto-árbitro Arana Waugh Campbell-Kirk precisar comunicar algo importante ao Wilton, conseguirá existir um diálogo compreensível? E pergunto isso respeitosa e preocupadamente, pois os atletas são nativos em norueguês e francês.
Claro que hoje devemos ser fluentes em inglês e demais idiomas, mas será que a exigência da FIFA faz sentido?
Dulcídio, Godoy e tantos outros grandes árbitros brasileiros precisariam falar o idioma para fazer parte do quadro internacional, o que não é cabível em nossas mentes, conhecendo-os…
Nessa mesma toada, como prova de que nem sempre é a língua que deve prevalecer, eis que vimos a primeira expulsão na história do futebol pelo protocolo “Vinícius Jr”, sobre mão na boca ao falar com um adversário.
Uma introdução: tudo isso surgiu após o episódio envolvendo Gianluca Prestiani, do Benfica, e Vinícius Jr, do Real Madrid, quando o atleta argentino escondeu a boca e supostamente ofendeu o jogador brasileiro com palavras racistas. Desde então, a FIFA proibiu que jogadores escondessem a boca (com a camisa, a mão ou qualquer outro artifício) ao falar com seus adversários, tendo como punição a expulsão.
Perceba-se: aqui, corretamente, é uma decisão que o gestual está acima da língua falada, pois o futebol se entende por diversos atos.
Enfim: Almirón, do Paraguai, abordou seu adversário turco na segunda rodada da Copa do Mundo e entrou para a história por receber Cartão Vermelho por tal gesto. E acho excelente que isso ocorra, pois inibe os racistas em campo. Se alguém cometer ofensas, será visível e ocorreria a expulsão. Se tentar disfarçar, idem.
O futebol não é somente a língua falada, mas o jogo jogado e suas relações discutidas.

