Cesar Grafietti é um dos maiores consultores de finanças e gestão no esporte. E tem um trabalho espetacular no futebol.
Com ciência e racionalidade, fala sobre a SAF e a ilusão que muitos têm. Vale a pena a leitura:
(Extraído de: https://cesargrafietti.substack.com/p/caminhos-para-uma-saf-o-que-nao-pode?utm_campaign=post&utm_medium=web&triedRedirect=true).
CAMINHOS PARA UMA SAF: O QUE NÃO PODE FALTAR PARA AUMENTAR A CHANCE DE ACERTO
Por César Grafietti
Na semana passada houve debates interessantes sobre o projeto da nova base do SPFC, e um deles foi junto ao Eduardo Tironi e ao Arnaldo Ribeiro no canal deles no Youtube. Uma hora de boa conversa, onde apresentei alguns números e análises a respeito da ideia, e uma constatação que chega a ser quase óbvia: dado o cenário atual, o clube do MorumBIS tem três alternativas possíveis para se recuperar: (i) não fazer nada e deixar que o tempo e o acaso crie um condição mais favorável, (ii) usar o projeto da nova base para ganhar algum fôlego e esperar que o acaso capacite os dirigentes, ou (iii) buscar uma solução estruturada através da criação de uma SAF, com mudança não apenas de modelo societário, mas de modelo de negócios, com ganho de tecnologia de gestão, dinheiro e pessoas qualificadas.
Não fazer nada não parece uma opção. Seguir pelo caminho (ii) me parece apenas um ganho de fôlego com prazo de validade curto. Por isso, minha recomendação foi para que houvesse uma mudança estrutural e efetiva com a criação de uma SAF.
Antes das críticas, me antecipo: SAF não é solução mágica através da qual chegará um punhado de dinheiro e pessoas novas e tudo será melhor. Ela é uma possibilidade de ganhos de qualidade na gestão, desde que seja estruturada, planejada e implantada da forma correta. Não como foi com a maioria das SAFs que tivemos no Brasil, pelo menos dos clubes de maior relevância, de Séries A e B.
Como deveria ser a busca de uma SAF eficiente? Existe alguma receita para ser seguida? Quais temas são mais sensíveis aos clubes, que precisam estar mais atentos? E é claro que existe uma espécie de check-list que deve ser seguido, e que varia conforme o negócio. Comparo as associações de futebol às empresas familiares, pois os negócios costumam ser geridos de maneira “artesanal” – ok, sei que é um eufemismo, mas vamos manter o lado lúdico da coluna-, muito esforço, por vezes falta de gente especializada – um conselheiro abnegado é semelhante ao sobrinho sem qualificação que precisa de um emprego – e isso até permite que o negócio cresça, mas com fragilidades que podem ser corrigidas por gestões especializadas.
Daí vem a primeira atenção que os clubes precisam ter: quem é o grupo que vai assumir a gestão? Nas primeiras SAFs tivemos a expectativa de que chegariam bilionários e fundos de investimentos com bolsos fundos e contratariam muitos jogadores, pagariam as dívidas e os clubes jamais seriam financeiramente inferiores a seus adversários. Nem sempre funciona assim. Em outras indústrias a chance de dar certo é maior, porque o comprador, normalmente um fundo de private equity, traz dinheiro e profissionais qualificados, com experiência nos negócios. Então a estrutura ganha tração.
O futebol é uma indústria muito mais complexa do que as pessoas imaginam. Lida com paixão, desempenho individual que precisa ser transformado em coletivo, vaidade, teimosia, reações violentas de consumidores e analistas. E a bola, muitas vezes, entra por acaso.
Não basta dinheiro. O que pode aumentar a chance de uma SAF ter resultados positivos é uma combinação de condições que devem ser definidas pela associação que busca essa transformação. Vamos listar algumas.
1. Necessidades
A primeira avaliação que uma associação deve fazer é sobre quais os motivos que a levam à criação de uma SAF. Quais as necessidades e problemas que precisam ser atacados? Endividamento sufocante? Dificuldade de crescimento? Necessidade de investimentos? Qualificação da gestão? Impulso para seguir dominante?
Para cada necessidade há um tipo diferente e ideal de investidor. E na maior parte das vezes a melhor solução é uma composição de investidores, que tende a ser mais eficiente que a chegada do bilionário árabe ou grego, que agirá como um cartola que fala outra língua.
2. Modelo de Negócios
O que a associação espera da SAF? Um clube de formação, um clube que seja dominante ou a soma dos modelos? Qual o modelo de negócios que permitirá um crescimento contínuo e sustentável?
Sustentabilidade é o nome do jogo, pois não haverá investimento infinito. O dinheiro é limitado porque os investidores querem retorno. O ativo precisa andar com as próprias pernas em algum momento, e nesse sentido é fundamental ter um grupo de investidores que estruture e impulsione o negócio a partir de dinheiro e tecnologia de gestão. Como fazer? Quem fará? O que nos remete ao próximo tema.
3. Perfil dos investidores e dos gestores
Na coluna sobre a SAF do Fluminense comentei sobre isso: não basta um monte de bilionários colocarem dinheiro achando que no futebol tudo é ruim, e que o toque de Midas deles será suficiente para reverter a situação. No grupo de investidores é necessário que haja alguém estratégico, que saiba operar futebol, e que traga profissionais qualificados e que não vivam a realidade anacrônica e fechada do futebol brasileiro. E aqui temos algumas dificuldades.
Primeiro, não temos tantos investidores estratégicos no futebol. Poucos são os grupos que realmente atuam de maneira global e profissional na indústria, e dois dos principais estão no Brasil: City Group e Red Bull. Outros MCOs são, em geral, formações criadas por investidores financeiros, sem grande coesão estratégica. Quem deveria fazer o papel de estratégico são clubes referência no mundo, como Bayern, Liverpool, Real Madrid. Nossos clubes deveriam buscar incluí-los, entre outros clubes, no grupo de investidores, para se aproveitar da tecnologia de gestão.
Outra dificuldade está na qualidade de gestão. Falta gente capacitada, e vivemos uma dança de cadeiras com nomes que se repetem em cores e lugares diferentes, sem entregas relevantes, mas apoiados no fato de já estarem na indústria.
Não é apenas no Brasil, diga-se. É muito comum falarmos com investidores de clubes americanos e ingleses de divisões menores que enchem a boca dizendo que na estrutura há pessoas que passaram pela Premier League ou Championship, como se fosse garantia de sucesso. São profissionais que estão distantes desses mercados porque praticam conceitos antigos de “gastar primeiro, o tempo todo, e resolver o caixa pedindo dinheiro para o acionista”. Em algum momento o investidor desiste.
Não há carimbo que isoladamente justifique escolhas. Ter passado por ligas grandes estrangeiras ou clubes grandes brasileiros nem sempre é garantia de sucesso, e o dirigente apela sempre para o mais fácil: contratar alguém com currículo, mesmo que não tenha trabalhos suficientemente bons.
O caminho para a SAF
Tentando resumir, podemos dizer que uma SAF aumenta a chance de sucesso se:
Não são os únicos itens que precisam ser avaliados, mas deixá-los de fora é certamente um erro. E se quisermos ultrapassar a desconfiança em relação às SAFs, os dirigentes associativos precisam trabalhar melhor a fase preliminar, seja em estrutura, seja em tempo. Para que não vire uma corrida desesperada em busca da salvação como se fosse mágica. Afinal, toda magia tem seu preço, e costuma ser bastante caro.

