– O sexo na Bíblia, no Livro dos Cânticos, e a palavra do Papa.

Extraído de: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54239999

CÂNTICO DOS CÂNTICOS: O LIVRO ERÓTICO QUE ESTÁ NA BÍBLIA SAGRADA

No livro “TerraFutura: Dialoghi con Papa Francesco sull’Ecologia Integrale”, uma coletânea de entrevistas do jornalista Carlo Petrini com o papa Francisco lançada neste mês na Itália, o líder máximo da Igreja Católica diz: “O prazer vem diretamente de Deus. Não é católico, nem cristão, nem nada parecido — é simplesmente divino”.

“O prazer de comer serve para manter uma boa saúde, da mesma forma que o prazer sexual serve para embelezar o amor e garantir a continuidade da espécie. O prazer de comer e o prazer sexual vêm de Deus”, afirma o papa.

Se declarações assim podem causar estranhamento aos conservadores católicos, vale ressaltar que a própria Bíblia Sagrada tem um livro erótico. Cântico dos Cânticos, que consta do Antigo Testamento, é o único poema das escrituras que celebra o amor sexual. Ou, nas palavras do professor de hebraico Robert Bernard Alter, da Universidade da Califórnia, em seu livro The Art of Biblical Poetry, trata-se de um texto sobre “dois amantes que se elogiam e se desejam com convites para o prazer mútuo”.

Mas por que uma obra assim acabou incluída na Bíblia — tanto nas escrituras judaicas, o Tanakh, quanto no compilado de livros que os cristãos chamam de Antigo Testamento? Segundo o filósofo e teólogo Fernando Altemeyer Junior, chefe do departamento de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), “não há a possibilidade de falar algo sobre Deus sem falar do amor erótico”.

“Como falar do divino sem falar das entranhas do humano?”, comenta ele em entrevista à BBC News Brasil. “A melhor teologia é sempre teologicamente antropológica. Falamos de Deus olhando corpos, desejos e medos dos humanos. (O poema) foi incluído (nas Sagradas Escrituras) pelos rabinos, pois viram nos textos a metáfora do amor de Deus pelo povo. O amante e a amada.”

Diretor de Cultura Judaica do clube A Hebraica de São Paulo e presidente da Cátedra de Cultura Judaica da PUC-SP, José Luiz Goldfarb recupera essa interpretação. “É um dos poemas mais lindos da Bíblia judaica, um dos poemas mais cantados nas nossas cerimônias, sinagogas. Sem dúvida, um texto curioso, quase erótico”, diz ele, à BBC News Brasil. “Claro que a interpretação é a relação do povo de Israel com Deus, uma relação de paixão absoluta, uma paixão quase física.”

No livro O Cantar dos Cantares, o professor de exegese e padre Alzir Sales Coimbra enfatiza que o livro recebe diversas leituras quanto ao tema central. “Destacam-se os temas da sexualidade e do erotismo, do amor erótico, do amor apaixonado, das experiências e descobertas amorosas, do amor sexual. Sem esquecer a definição de Carlos Mesters (frade carmelita e exegeta, autor de Sete Chaves de Leitura para o Cântico dos Cânticos): ‘o amor entre o homem e a mulher tem a ver com Deus'”, expilca à reportagem padre Boris Agustín Nef Ulloa, professor da Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da PUC-SP.

“O Cântico dos Cânticos tem sido objeto de leituras e releituras”, acrescenta à BBC News Brasil o padre Carlos Alberto Contieri, reitor do Colégio São Luís e diretor do Pateo do Collegio. “Mas, o tema principal da coletânea é o amor e, mais especificamente, o amor erótico entre o homem e a mulher. Na interpretação alegórico-tipológica judaica e cristã, no amor entre homem e mulher há uma força divina que se mostra na figura insubstituível do parceiro.”

Enredo

Quando ao estilo literário poético, Ulloa, da PUC-SP, não vê o Cântico como um livro peculiar. “Talvez, poderia-se falar em peculiaridade se o olhar se volta para os personagens que desenvolvem o enredo, a trama do livro: o diálogo amoroso entre homem e mulher”, analisa. “A busca incessante do amado pela amada e vice-versa. Este livro, muito provavelmente foi incluído na Bíblia para nos ensinar que a melhor forma de falar de Deus e com Deus é a materialidade do amor humano. Isto é, o amor humano revela o ser de Deus. Em outras palavras, Deus se revela no amor humano.”

“São poemas assentados em antigas histórias de amor que circulavam na oralidade das culturas orientais. A linguagem é explicitamente erótica e irreverente, descrevendo os corpos do amado e de sua amada”, diz Altemeyer, da PUC-SP.

Domínio Público/ Wikicommons / Reprodução da tela A Queda do Homem, de Peter Paul Rubens

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