– Sobre a Profissionalização dos Árbitros, anunciada pela CBF.

Muita coisa a falar (e a se perguntar) sobre a Profissionalização de 72 Árbitros anunciada pela CBF. Serão 20 árbitros centrais, 40 bandeiras e 12 VARs (número considerado ideal para tocar o Brasileirão 2026).

Desde os anos 90, quando ingressei na Escola de Árbitros, ouço falar sobre a profissionalização da categoria. À época, o modelo dos sonhos era CLT, com todos os direitos assegurados (FGTS, INSS, PIS, COFINS recolhidos), mas que nunca saiu do papel.

Hoje, os árbitros costumam assinar um documento onde se dizem “prestadores autônomos de serviços aos clubes, sem vínculo empregatício à FPF ou CBF”. Em tese, quem paga a arbitragem é o clube mandante (na verdade, é o organizador, mas que desconta do time direto da receita).

Tempos atrás, fazia sentido cobrar a profissionalização, pois as taxas eram baixas e o árbitro obrigatoriamente deveria complementar seu salário com outra atividade profissional. Mas hoje, isso se tornou “conversa fiada” para a elite do apito. As taxas são altas, e os árbitros da série A vivem da arbitragem, seja nos jogos da CBF e/ou Federações Locais, seja em eventos municipais (os “por fora”, que costumam render, muitas vezes, mais do que um jogo do Campeonato Brasileiro).

No mundo ideal, um árbitro de futebol profissional teria um salário fixo e um percentual por jogo apitado. Suas escalas teriam um número mínimo e um número máximo de convocações, a fim de não ficar com poucas partidas e perder o ritmo de jogo, e ao mesmo tempo ter um período de descanso compatível para não sobrecarregá-lo. Nessa situação, teria dias pré-definidos com treinos supervisionados pelos preparadores físicos da CBF, e outros de atualização de regras com a Comissão de Arbitragem. Tudo controlado, com relatórios de desempenho e profissionais qualificados (fisiologistas, psicólogos e instrutores). Evidentemente, nesse modelo você não teria outra ocupação profissional e, além das cobranças de preparação, teriam os juízes as obrigações da carreira: preservação de imagem em publicidades que não condizem à atividade, veto a atuação em jogos amadores e/ou festivos fora da jurisdição da CBF, e avaliações de desempenho constantes.

O modelo proposto pela CBF é parecido com esse, quanto à remuneração. Mas me chamou a atenção o seguinte quesito, citado no anúncio:

“Além da remuneração específica, os 72 árbitros vão ser avaliados sistematicamente por observadores e uma comissão técnica contratada pela CBF. Receberão notas por uma composição de variáveis, como controle de jogo, aplicação das regras, desempenho físico e clareza na comunicação. Integrarão um ranking que será atualizado a cada rodada .”

Ora, quem é a “Comissão Técnica contratada”? Vemos os observadores (e a própria Comissão de Arbitragem) analisando erros cometidos, brigando com a imagem e, pior, orientando com equívocos! De nada adianta pagar mais aos árbitros, se quem os forma e os molda não tem competência. Talvez o maior problema não seja o árbitro em si, mas quem os treina!

Algo que me incomodou foi a fala do presidente Samir Xaud:

“Os árbitros serão remunerados, com salários mensais, taxas variáveis e bônus por performance, e deverão se dedicar prioritariamente à atividade, sem a obrigação de exclusividade.”

TEM que ter exclusividade, caso contrário, veremos a mesma situação de hoje: nas folgas, o árbitro fará eventos para ganhar mais dinheiro e não se cuidará. Assim, pouco mudará.

Hoje, o árbitro (que não é cobrado profissionalmente mas ganha como tal, sem os benefícios que deveria ter), tem um comportamento amador. Ele, após um jogo profissional, não faz um recuperativo adequado. Vide o sem-número de árbitros que trabalham nos jogos amadores ganhando muito dinheiro! É comum que, por estarem na mídia, sejam contratados por Prefeituras para apitarem em seus municípios como atrações (ou por ligas amadoras, ou associações esportivas). E a remuneração é muito boa! Às vezes, maior do que o jogo que apitou pelo Brasileirão. E funciona assim: você apitou no sábado em algum jogo pelo Campeonato Brasileiro, e no domingo será a grande estrela do campeonato amador de uma cidade do Interior. Por ser a atração, pelo “sacrifício” de estar “se expondo” em uma partida de amadores, cobra caro (é comum que seja uma taxa maior do que a Série A, pois está se dispondo a sair do circuito profissional). Ou seja: ganham renda extra no dia em que deveriam estar no recuperativo (com uma vantagem: nesses jogos, são paparicados, não são vaiados e tiram fotos com os jogadores e demais admiradores, sendo o momento pop-star).

A pergunta é: por que não exigir a exclusividade?

A segunda pergunta: se fossem exclusivos, boa parte desses árbitros não aceitariam o modelo oferecido?

A terceira pergunta: quais serão os valores pagos?

A derradeira pergunta: Contrato de PJ para PJ, CLT, via Sindicato ou de que forma?

Aguardemos mais esclarecimentos nos próximos dias.

Os árbitros são:

Alex Stefano, Anderson Daronco, Braulio Machado, Bruno Arleu, Davi Lacerda, Edina Batista, Felipe Lima, Flávio Souza, Jonathan Pinheiro, Lucas Casagrande, Lucas Torezin, Matheus Candançan, Paulo Zanovelli, Rafael Klein, Ramon Abatti, Raphael Claus, Rodrigo Pereira, Savio Sampaio, Wagner Magalhães e Wilton Sampaio.

Aqui, todos do quadro da FIFA e aspirantes. Foram os que mais trabalharam no ano passado (por isso, a surpreendente manutenção de todos os nomes do quadro de árbitros internacionais no final do ano). Somados, alguns talentos e, como surpresa, Wagner Magalhães (veteraníssimo, que não tem feito bons jogos e à beira da aposentadoria).
Repare que muitos foram suspensos mais de uma vez (como Zanovelli) e alguns que foram para geladeira no final do ano (como Ramon Abatti Abel e Lucas Casagrande).

Os bandeiras são:

Alessandro Matos (CBF), Alex Ang (FIFA), Alex Dos Santos (CBF), Alex Tomé (CBF), Andrey Freitas (CBF), Anne Kesy (FIFA), Brigida Cirilo (FIFA), Bruno Boschilia (FIFA), Bruno Pires (FIFA), Celso Silva (CBF), Cipriano Silva (CBF), Daniela Coutinho (FIFA), Danilo Manis (FIFA), Douglas Pagung (CBF), Eduardo Cruz (CBF), Evandro Lima (CBF), Fabrini Bevilaqua (FIFA), Felipe Alan (CBF), Fernanda Kruger (FIFA), Fernanda Nandrea (FIFA), Francisco Bezerra (CBF), Gizeli Casaril (FIFA), Guilherme Camilo (FIFA), Joverton Lima (CBF), Leila Naiara (FIFA), Leone Rocha (CBF), Luanderson Lima (FIFA), Luiz Regazone (CBF), Maira Mastella (FIFA), Michael Stanislau (CBF), Nailton Junior (FIFA), Neuza Back (FIFA), Rafael Alves (FIFA), Rafael Trombeta (CBF), Rodrigo Correa (FIFA), Schumacher Gomes (CBF), Thiaggo Labes (CBF), Thiago Farinha (CBF), Tiago Diel (CBF) e Victor Imazu (FIFA).

Os VARs são:

Caio Max, Charly Wendy, Daiane Muniz, Daniel Bins, Diego Lopez, Marco Fazekas, Pablo Ramon, Rodolpho Tolski, Rodrigo Dalonso, Rodrigo Guarizo, Rodrigo Sá e Wagner Reway.

Aqui, uma observação: Daiane Muniz, na FPF, é árbitra. Na CBF, é VAR.

Enfim: precisamos que a CBF explique melhor como se dará essa profissionalização, para entendermos se foi um modelo adequado.

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