Para ficar o entendimento dos lances a seguir, um preâmbulo didático: estamos no começo dos anos 90, na Escola de Árbitros Flávio Iazzetti da FPF, na fala do instrutor FIFA Gustavo Caetano Rogério:
“Quando alguém for com a trava da chuteira no adversário, não tem que administrar, porra, é Cartão Vermelho. Se quiser fazer média não vai apitar”.
O saudoso e querido professor Gustavo odiava que se utilizasse a expressão “administrar o jogo”, pois o árbitro deve cumprir a regra. E eu não me esqueci da resposta, a anotei, pois a pergunta estúpida (sobre administrar jogo) era minha… jovem, recém formado em Administração, fiz uso indevido do termo.
Dito isso: muitos árbitros estão administrando situações para não se comprometerem! E transferem a responsabilidade, malandramente falando, para o VAR. As decisões são sempre omissas, esperando o chamado da cabine, pois lá tem VAR e AVARes no ar condicionado com inúmeras câmeras (embora, sem sentirem o calor do jogo e sem o elemento principal: a visão privilegiada do árbitro dentro de campo, coisa que câmera alguma tem).
Em torneios eliminatórios de dois jogos (mata-matas), um erro de árbitro no primeiro jogo pode repercutir no segundo e ser decisivo. Por exemplo: e se o Raphael Veiga (que entrou de sola na perna de Eric Pulgar e deveria ter sido expulso e não foi) “arrebentar” no jogo de volta e ser decisivo no Allianz Parque? Não-expulso no Maracanã, decidindo… se expulso, seria um desfalque importante (aliás, o Palmeiras com 10 atletas no jogo de ida poderia tomar mais gols, hipoteticamente).
E por que o árbitro Bráulio da Silva Machado não expulsou?
Antigamente, muito árbitro evitava expulsar atleta no primeiro jogo para “não se comprometer”, com a maldita ideia de que “estragaria o jogo de volta”. Ora, quem estraga é o jogador! Se o árbitro tem que expulsar e isso vai desfalcar um time, não é culpa dele, pois se cumpre a regra e acabou! E há jornalista que defende isso: poupar vermelhos para o bem do espetáculo. Será que Bráulio pensou nisso?
O VAR Igor Junio Benevenuto de Oliveira deveria ter chamado, pois para lances de possíveis cartões vermelhos e erros crassos, o protocolo precisa ser acionado. A única explicação é: Igor não achou lance crasso e respeitou a interpretação do árbitro. Se assim o fez, errou. Veiga vai com as travas em Pulgar, já tinha perdido o tempo da bola e nem esboça movimento de evitar contato com o adversário.
Na Neo Química Arena, houve o lance de Raniele que “meteu o pé” em Villasanti e Gustavo Nunes que deu uma braçada/cotovelada em Pedro Henrique (desde 2021 há a orientação para expulsão nesse tipo de atitude com mãos e braços no adversário). Ambos mereceram o Cartão Vermelho. Mas o detalhe é: não se pode passar batido que o veteraníssimo Marcelo de Lima Henrique, com 52 anos, na frente dele, tenha contemporizado a entrada de Raniele e dado apenas o Cartão Amarelo. Felizmente o VAR Rodolpho Toski Marques corrigiu o cartão. Nesse momento, pensei: Marcelo “deu uma de Bráulio”, em relação, a Veiga, e tentou poupar o atleta também?
Em Curitiba, o Red Bull Bragantino fazia um abafa no Athlético Paranaense e não deixava o adversário jogar. Num contra-ataque, tomou o primeiro gol. Na sequência, tomou o segundo gol. E no final do primeiro tempo, quase tomou o terceiro num pênalti de queimada!
A bola é levantada na área, o atacante do Furacão cabeceia para o gol e a bola bate no braço de Nathan Mendes. O defensor estava de costas, pois tinha saltado e perdido a bola. Seus braços estavam em movimento natural e é a bola que bate nele! Não tem nada de intenção ou movimento antinatural, e o árbitro carioca Wagner Magalhães nada marca. Eis que o VAR pernambucano Gilberto Rodrigues Castro Júnior o chama e ele muda de opinião. Errou! Faltou personalidade ao juizão… e aqui, novamente: transferência de responsabilidade!
Eu, sinceramente, não sei o que é pior: a deficiência técnica dos árbitros ou se falta “culhão” para se bater no peito, agradecer a sugestão do VAR e dizer: “fico com a minha interpretação de campo”. Má intenção ou desonestidade não é, esqueça.
Em tempo: e o torcedor corintiano bobão (para usar um termo publicável) que fez gestos de natação ironizando insensivelmente os gaúchos com a tragédia da enchente? Parabéns ao clube por repudiar, mas deveria proibir o sujeito de voltar a entrar no estádio. Aliás, o que os filhos e os netos desse “cidadão” devem estar pensando, né?

