– Existe ciúme entre Árbitro e Árbitra na carreira e nas escalas no futebol?

Ontem, participei como ouvinte do “Seleção JP”, no pré-jogo de Corinthians x São Paulo, com o Wanderley Nogueira na Rádio Jovem Pan (ops: acertei o palpite do Majestoso: empate, justificado pelo estilo de arbitragem). Na oportunidade, falando sobre o caso Edina, Leandro e Ana Paula (sobre a expulsão do 4o árbitro da bolha sanitária, vide aqui: https://wp.me/p4RTuC-uCc). Após pergunta do jornalista Bruno Prado, o Wanderley interpelou com uma EXCELENTE questão: “Nos bastidores, existe ciúme entre ‘os moços, os árbitros’, com ‘as moças, as árbitras'”?

E a resposta não poderia ser outra: sim! E expliquei alguns tipos de “queixas” que os árbitros, na surdina, faziam e fazem. Compartilho, desenvolvendo melhor o pensamento:

Desde os tempos de Léa Campos (a pioneira mulher a apitar jogos importantes no Brasil e no Mundo e impedida pela Ditadura Militar de arbitrar jogos “por ser mulher”) existe preconceito. A novidade, nos dias atuais, é o ciúme, que deu o seu braço de inveja para o preconceito e caminham de mãos dadas.

Na virada dos anos 90/2000, Eduardo José Farah resolveu dar oportunidades às mulheres na arbitragem e no futebol feminino em geral. Criou o “Paulistana” com a TV Bandeirantes e deu muitas chances aos talentos femininos (Farah teve inúmeros e condenáveis pecados, mas uma justiça deve ser feita: com ele, surgiram mais árbitros negros e árbitras no futebol paulista – e que abraçaram o sucesso ou não dependendo das suas atuações, sempre muito bem avaliadas pelo Prof Gustavo Caetano Rogério, que tinha um incrível olho clínico para revelar talentos no apito).

A isso se dá o nome de “equidade” (diferente de “igualdade”), ou seja, chances para quem estava esquecido ou era mal visto (mulheres, como Sílvia Regina e outras; negros, como João Paulo Araújo, Paulo César de Oliveira, entre outros). Aliás, quantos árbitros negros e árbitras tivemos antes desse período? E treinadores negros, hoje?

No período citado, ao ver Sílvia Regina apitando e moças bem jovens bandeirando (Ana Paula Oliveira, Aline Lambert e Maria Elisa Correa Barbosa), a queixa dos árbitros enciumados era: “só apita porquê é mulher”, ou: “reparou que não tem bandeirinha feia”? E por aí vai. Aqui, minha consideração: Sílvia era uma árbitra comum – nenhum talento acima da média como Paulo César de Oliveira no auge de sua carreira, tampouco uma tragédia dentro das 4 linhas. Sua qualidade era aceitável, e os erros, normais a todos os outros árbitros. Já as bandeiras eram realmente muito boas: as 3 que citei, e que trabalhei em várias oportunidades, sempre tiveram qualidade acima de muitos homens. Talvez, justamente por serem mulheres e conseguirem maior concentração, focavam muito bem nos impedimentos.

Naquele período “o que pegou” foi: “Teste físico”. Um árbitro precisava correr 2700m em 12 minutos para apitar um jogo profissional da A1. Uma árbitra, 2400m no mesmo tempo. Assim, o homem não poderia apitar se corresse 2699m, mas a mulher que corresse 2401m, sim. E aqui Tite foi incompreendido certa vez, quando disse num Corinthians x São Paulo que a Sílvia Regina apitou mal pois ficou longe dos lances no final da partida, pois não tinha condição física igual a dos homens (o treinador foi criticado por isso na época e chamado de “machista”).

Mais tarde, surgiu um segundo novo momento da arbitragem feminina: a da exigência de tempos iguais para árbitros e árbitras para apitarem os jogos. E aqui destacaram-se pelo bom condicionamento físico algumas bandeiras (Renata Ruel, hoje comentarista na ESPN; Tatiane Sacilotto, na CEAF-SP) e a árbitra Regildênia de Holanda, cotada para entrar na vaga de Nadine Bastos na Globo – fez um teste piloto, segundo o UOL – e que vive uma situação complicada no Sindicato dos Árbitros, pois é vice-presidente lá mas trabalha como observadora na FPF, o que tem sido criticado por colegas.

Essas árbitras e assistentes não ficavam devendo em desempenho quanto aos homens. As bandeiras, foram igualmente competentes acima da média quanto as citadas anteriormente. Regildênia, absurdamente veloz nos testes físicos (ela voava nas pistas de atletismo!), com o mesmo desempenho técnico de Sílvia – ou seja, normal (isso não é demérito, que não se interprete errado). Aqui, do preconceito passou para o ciúme, com queixas do tipo: “tem que escalar por que é mulher”; ou: “estão tirando escala dos homens competentes somente para fazer média com as mulheres”. Havia também o fato de Marco Polo Del Nero estar no cargo e criar cursos exclusivos para árbitras, levando a outras interpretações muito contestadas por aí (que não valem a pena ser discutidas, pela figura nefasta que ele foi para o futebol paulista).

Por fim: chegamos ao advento “Edina Alves”, uma árbitra FIFA de melhor qualidade do que as árbitras centrais citadas (não sendo um fenômeno, mas sim, repito, de qualidade muito boa). Edina provoca ciúmes reais nos seus companheiros: ela vai às Olimpíadas de Tóquio, foi pioneira como mulher no Mundo Árabe no Mundial de Clubes da FIFA e passou a ser uma “ameaça” à vaga como representante da Copa de 2022 a Raphael Claus e Wilton Sampaio (ops: não se entenda que eles sejam os ciumentos ou torçam contra). Acrescento também o nome da árbitra assistente Neuza Back, de qualidades idênticas em sua função.

Como Edina está em vários jogos e aparecendo mais, os erros dela serão logicamente mais notados. E os árbitros que a criticam, criticam “com a boca cheia” quando os vêem. Pessoas que não são adeptas de mulheres no futebol feminino, deleitam-se nesses equívocos. A desculpa aqui é: “vivemos na era da diversidade, do politicamente correto, só por isso ela está escalada”.

Enfim: respeito todas as opiniões contrárias, mas hoje, deixo claro, defendo a meritocracia, a equitativa oportunidade e a igualdade de deveres e direitos independente do gênero. Aliás, falando em gênero, se com a Edina temos preconceito, imagine se tivéssemos um transsexual na elite, como o caso que aqui falamos em Israel, dias atrás? Vide aqui: https://wp.me/p4RTuC-uwy.

Feliz dia das Mulheres – Árbitras no Futebol | Refnews - Arbitragem de futebol em foco
Foto: Refnews.

2 comentários sobre “– Existe ciúme entre Árbitro e Árbitra na carreira e nas escalas no futebol?

  1. Bom dia Porcari. Vc sabe que uma vez árbitro, sempre árbitro. Em fevereiro/ 20 fui assistir um jogo no Pacaembu e foi arbitrado pela Edina. Fiz uma postagem no Face falando de suas qualidades, quando ainda era uma ilustre desconhecida ou pouco divulgada. Vejo uma porção de críticas a ela, pois seus equívocos são potencializado, por ela ser uma real concorrente a torneios e campeonatos mais divulgados. Nesta briga entre o Leandro, Edina e AP, sabemos que a última se tornou uma pessoa arrogante e prepotente, se achando acima do bem e do mal. No erro técnico da Edina de mostrar o segundo amarelo, com supressão do vermelho, origem de toda celeuma, ele tinha sim a obrigação de relatar, sem qualquer comunicado ou autorização dela. E AP tomou uma atitude drástica, em uma situação que com um pouco de jogo de cintura e bom senso, não passaria de uma conversa entre 4 paredes.
    Só um detalhe, nesta relação de árbitras, vc esqueceu da melhor delas e pouco aproveitada… Cleide Rocha. A baixinha era fera.

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  2. É essa a palavra-chave: bom senso! Puxa, me esqueci da Cleide… um pecado. Fica aqui o registro com sua lembrança, ela era realmente muito boa, mas não teve tantas oportunidades (ou: melhores oportunidades) do que merecia.

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