– Você tem coragem para mudar?

Li e gostei demais deste texto: e coragem para mudarmos? 

Temos?

Extraído de: https://psicologaheloisalima.com/2020/11/16/coragem-para-mudar-voce-tem/

CORAGEM PARA MUDAR, VOCÊ TEM?

Imagem Movimento Pais 1

“Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos,
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais.”

In: Como Nossos Pais – de Belchior

Em algum momento da sua vida você já acreditou que teria nascido para ser a ‘vítima’ preferencial de determinadas pessoas? Que não importava o que fizesse, você continuaria trombando com estes mesmos tipos pela frente? Que só podia ser ‘carma’, falta de sorte’ ou algum tipo de ‘encosto’?

Sou mesmo um(a) azarado(a)! “Quando penso que não, lá estou eu namorando uma pessoa que só me faz mal!

E quando percebe que está se apaixonando por alguém ‘diferente’ que, rapidamente, se revela igual a todas as pessoas que já passaram por sua vida, como é que você se sente? Que é alvo de algum tipo de azar recorrente ou que precisa encontrar outra explicação para este padrão repetitivo?

Acontece que a maioria das pessoas reproduzem os mesmos relacionamentos insatisfatórios porque, não importa quão infelizes possam parecer, eles são aquilo que foram condicionados a aceitar.

Afinal, nossas habilidades interpessoais foram desenvolvidas no ambiente psicológico em que crescemos.

O fato é que na infância nos acostumamos com a maneira pela qual somos tratados dentro das nossas famílias. Mesmo que nossos pais tenham sido amorosos (o que nem sempre é a regra), os momentos sutis ou acidentais em que fomos criticados, menosprezados ou abandonados, nos afetaram ecausaram profundas marcas em nosso psiquismo – o que, dependendo de como estas experiências serão elaboradas, podem nos deixar sentimentos desfavoráveis ​​em relação a nós mesmos.

Então, por que será que alguns relacionamentos amorosos repetem exatamente modelos absolutamente lesivos que vamos observando no decorrer da nossa infância, adolescência, até atingirmos a vida adulta?

A proposta de refletir sobre este tema nasceu justamente desta constatação alcançada depois de muitos anos de clínica em psicologia.

No ambiente terapêutico, a vida conjugal, assim como as desordens emocionais envolvendo os membros da família, adquire uma importante posição dentro dos conflitos que nos acompanharão. Ou não (se assim decidirmos).

E o que nutre esta tendência? Por que nos transformamos em meras e enfadonhas repetições de enredos que comprovadamente não deram certo e nem nos farão felizes? Por que, mesmo assim, teimamos em reprisar experiências fadadas ao insucesso, muitas vezes mantendo relações por toda vida em nome de demonstrar aos outros que soubemos corrigir os erros a fim de fazermos “dar certo”?

Talvez, uma pista possa ser fornecida por aquilo que Freud definiu como “processo de escolha do par ideal”.

Fundamentado na sua vivência do ‘complexo de Édipo’, o homem tenderia a buscar parceiras desejadas por outros homens, reeditando o mesmo sentimento experimentado quando precisou dividir sua mãe com seu pai. Portanto, este adulto estaria identificando-se de maneira totalmente inconsciente com a figura paterna.

No caso da mulher, o mesmo ocorreria com ela buscando homens que possuam características muito semelhantes às do pai.

Isto produziria certa zona de conforto onde tudo pode ser reprisado sem que haja qualquer necessidade de revisão ou de criação de novos modelos

Acreditar que nossos pais (ou cuidadores) sejam nossas referências mais seguras é um sentimento construtivo, inicialmente. Posteriormente, é preciso que estas relações ofereçam uma atmosfera de liberdade que propicie uma espécie de revisão crítica que, sem dúvida, auxiliará o indivíduo no sentido de criar autonomia nas atitudes e pensamentos, propiciando o desejável e saudável desligamento do núcleo familiar em prol da criação de um verdadeiro espaço para ser único e exclusivamente seu.

Fora desta perspectiva, as relações parentais estarão fadadas a criar vínculos de dependência cujo resultado produzirá filhos que passarão a vida tentando reeditar os pais nos mais diversos aspectos, seja na profissão, no modo de se relacionar com a vida e de conceber o mundo, ou seja, repisando dores e amores que só trarão infelicidade e frustração.

Pude acompanhar, por muitos anos, filhas de alcoólatras casando-se com homens incríveis que logo se revelariam adictos, reiterando o mesmo comportamento de suas mães. Filhos reproduzindo comportamentos machistas dos pais e casando-se com mulheres submissas iguais as mães. Mulheres que só conseguiam se relacionar com homens comprometidos e homens que só se atraiam por mulheres possessivas. Mulheres encontrando um dependente emocional a cada esquina e homens esbarrando com parceiras manipuladoras por todos os cantos. Sem saber porque fazem estas estranhas seleções.

Quando perguntados(as) sobre as semelhanças entre suas escolhas e as relações que presenciaram no decorrer da vida, prontamente respondem não haver a menor correspondência.

Porém, com o passar do tempo e diante da possibilidade de ressignificar suas experiências mais íntimas como, por exemplo, a impotência vivenciada diante do sofrimento da mãe subestimada ou do pai humilhado, essas pessoas inevitavelmente encontravam a confirmação de que muitos deste afetos eram simplesmente ‘deslocados’ suas atuais ligações afetivas.

Conceberam, finalmente, que o amor vivenciado hoje carregava muitos traços daquilo que entendiam como a única relação possível entre seres humanos.

Se nossos protetores eram assim, então é assim que devemos nos manter, afinal.

Como se a conexão com o mundo e a preservação da identidade pessoal só fossem se concretizar se as escolhas confirmassem aquelas feitas pelos pais.

E isto pressupõe, dentro da corrosiva e enlouquecedora lógica familiar, que não devemos olhar para outras opções e que não podemos buscar alternativas diferentes para ser e sentir.

Será que você já leu o suficiente para que, neste instante, se pergunte se existem facetas da sua vida onde fica clara a reiteração dos exemplos herdados de mamãe e papai? Já havia pensado nisso?  Se não, aceitaria pensar agora?

Gosto muito da imagem do cordão umbilical posto que nela é notável a dependência visceral existente entre feto e mãe. Uma sensação de complementariedade e preenchimento que nunca mais experimentaremos.

Ora, esta experiência certamente é tão boa e gratificante que, ao sermos lançados para o mundo externo, choramos nos debatendo desesperadamente para que nos levem de volta àquele lugar seguro e quentinho, onde permanecemos abrigados por meses a fio e de onde jamais desejaríamos sair.

A partir desta inevitável separação, passamos a viver uma vigorosa busca deste vínculo exemplar representado por aquela sensação ancestral e maravilhosa da qual sentimos uma indescritível falta.

Em suma, quando corremos em busca do amor idealizado – e inatingível – fatalmente iremos esbarrar em frustrações inexoráveis que só nos levarão à mais decepções e desencantos.

No entanto, percebendo nossa singularidade e o quanto somos distintos de nossos parentes, poderemos nos permitir testar caminhos diversos, encontrando pessoas de verdade e, por isto, humanamente falíveis.

Diferentes das nossas fantasias, existirão seres reais, com suas qualidades, suas tramas e seus defeitos. Gente como a gente.

E daí, quem sabe, longe da precariedade dos amores que teimamos em repercutir, aproveitaremos relações mais leves e muito mais prazerosas.

Então, tenha coragem de mudar. Porque a felicidade da vida amorosa, necessariamente, passa por aí.

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